Thursday, March 01, 2007

Cientistas pouco esclarecidos

Poderá um cientista ou divulgador de ciência ignorar a História da Ciência ou ter dela visões sectárias? Aparentemente, não. Mas na prática, sim. É o que acontece muitas vezes. Em dois encontros públicos recentes, em Aveiro, com pessoas de elevada craveira, notei tomadas de posição que de alguma forma rebaixam ou desprezam a fé cristã no diálogo com as ciências naturais. Crentes como eu haveria com certeza na assembleia. Mas é feio desautorizar os convidados. Pelo que eu e os outros optamos pelo silêncio, com o risco de a asneira, à força de tanto ser repetida, ganhar aparência de verdade.

Num desses encontros, dizia o orador que com a ciência é possível o diálogo e a discussão, porque o seu método é o experimental. Levantam-se hipóteses, geram-se teorias, elaboram-se leis e tudo é discutível se entretanto surgirem novas hipóteses, novas teorias e novas leis, submetidas ao escrutínio da experiência. Com a religião, dizia a autoridade ligada a uma das fundações com mais prestígio na divulgação científica, tudo é diferente. O seu método é a revelação, logo não permite discussão, até porque a religião não tem hipóteses nem teorias, mas dogmas.

Noutro, dizia o divulgador que, sendo astrónomo, não podia “acreditar no que dizem os astrólogos, os senhores padres ou outras superstições”. Creio que não erro na frase anterior nem na expressão seguinte. Prescindia dessas “muletas”, embora respeitasse quem delas precisasse.

Não me espanta que não saibam grande coisa de religião e, portanto, confundam fé e religião com superstição e astrologia (esquecendo que a verdadeira fé é inimiga da superstição e da astrologia), ou que ignorem que os dogmas também são fruto de discussão, vivências, história, hipóteses. E que estão sujeitos a evolução e a novos olhares. Admira-me é que não saibam de história da ciência. Se soubessem, notariam que foi graças ao cristianismo e ao Criador transcendente que o céu ficou limpo de deuses e figuras mitológicas, logo, foi possível olhar pelo telescópio e pensar que no aparente caos das estrelas e dos planetas há leis racionais a descobrir. Notariam que as universidades, as grandes construtoras do saber no mundo ocidental, nasceram à sombra das catedrais medievais. Notariam que o surgimento da ciência moderna na Europa não foi uma casualidade.

A ciência podia ter nascido na Grécia Antiga, ou no Médio Oriente árabe florescente, ou na Índia e na China. Mas tal não aconteceu. Surgiu precisamente na Europa. E porquê? Hoje é dado consensual que só no Ocidente europeu havia um quadro mental em que a ciência, com o seu método experimental, pudesse florescer.

E que quadro era esse? Era um espaço espiritual com duas características fundamentais. A primeira é precisamente a fé num Deus Criador (o de Jesus Cristo, pois claro). Sendo Criador, racional e bondoso, só poderia ter criado a natureza segundo leis racionais, estáveis, possíveis de descobrir pelo ser humano igualmente racional (“criado à sua imagem e semelhança”). Sendo um Deus pessoal, estabelecia diálogo com o ser humano através da natureza. Num quadro mental politeísta, a ciência pôde atingir picos interessantes (Grécia antiga, Índia, China), mas nunca adquiriu sustentabilidade. O capricho de um deus qualquer acabava por gorar a racionalidade científica.

A segunda característica fundamental é a noção de história. Foi no judeo-cristianismo (Moisés e Jesus) que surgiu a noção de história linear, isto é, uma história feita de evolução. Com altos e baixos, é certo, mas em progresso. As Alianças de Moisés (a velha) e de Jesus (a nova) constituíram sempre marcos no tempo contra o eterno retorno ou a concepção cíclica do tempo (a começar por aquela que imaginava uma “idade de ouro” no passado e tempos decadentes no presente). Esta consciência da história, da evolução e da não repetição do tempo, foi (e é) igualmente fundamental para o progresso científico.

Por fim, surgem agora cientistas e filósofos da ciência (ou seja, epistemólogos) a dizer que só a racionalidade de base cristã pode salvar a ciência de um grande perigo que a mina desde o seu interior: o cepticismo que tudo relativiza e destrói as concepções morais fundamentais.

Convém que os cientistas, espíritos críticos, conheçam um pouco mais da história da ciência, porque, como bem sabem, quem não distingue… confunde.

Thursday, October 19, 2006


Science&Vie dedica-se aos milagres

O numero 236 “hors série” da Science&Vie intitula-se “Les miracles. Concevoir l’inconcevable”. É excelente, como todos os especiais desta revista. O milagre apenas é abordado como “singularidade científica” ou “excepção médica”, nunca como mensagem de salvação, nunca na perspectiva bíblica (sinal extraordinário + mensagem). Não há teólogos. Só cientistas, epistemólogos e filósofos. Mas, mesmo assim, excelente como ponto de partida, mesmo quando já ninguém usa o milagre no esforço de justificar a credibilidade da fé cristã.

Wednesday, October 18, 2006

Deus, que Deus?

Diz Anselmo Borges na crónica do DN de 15 de Outubro: “Não há dúvida de que hoje, concretamente na Europa, há uma crise da religião, que é sobretudo uma crise de Deus. Basta perguntar, se modo simples: para quantos é que Deus ainda conta realmente nas suas decisões vitais, tanto no domínio pessoal como colectivo?”

A questão é pertinente e o padre filósofo preconiza uma “mística do quotidiano”. Mas teremos nós, sociedade europeia, saudades do tempo em que Deus contava nas decisões pessoais e colectivas? Esse tempo era melhor? E depois, a grande questão: de que Deus falamos quando falamos de Deus? Nunca daí conseguimos sair.

O que é Deus contar nas decisões pessoais e colectivas? Como é que isso se faz, sem falar de pecado (as decisões humanas contra Deus)? Como pode existir o pecado no meio do relativismo e do psicologismo (aquele que quer evitar os traumas de uma educação rígida e/ou religiosa, por exemplo).

Mais: Deus nas decisões colectivas e pessoais... não é isso que acontece nos fundamentalismos?
O apagamento de Deus na sociedade contemporânea e dos seus sucedâneos (o pecado, os sacramentos – sinais do sagrado, o céu e o inferno, o valor do sacrifício, a oração) não afectam apenas a sociedade. Afectam a Igreja. Numa recente reunião em que se debatia o laicismo, um alto responsável dizia: “Se fosse há 30 anos, estávamos aqui a discutir o céu e o inferno, agora estamos a falar de laicismo, laicidade e presença da Igreja na sociedade”. Dizia isso como sinal de atenção da Igreja aos problemas do mundo. Mas a minha leitura é outra: significa a perda de significado do que é intrinsecamente religioso (e que por isso ilumina ou obscurece toda a vida humana), e irrelevância da própria Igreja. É que nem esta fala de Deus, do céu e o inferno, do pecado e da graça. E se fala, fala com as categorias do passado, as quais, de tão conotadas com outras épocas, foram necessariamente abandonadas. A Igreja é mais reflexo da sociedade do que fermento.

O problema, ao contrário do que dizia Anselmo Borges, não é o apagamento de Deus da sociedade. É o apagamento de Deus da Igreja. Talvez apagamento seja demasiado forte. Digamos antes: o modo irrelevante de falar de Deus e de Jesus Cristo nas homilias, nos livros, nos jornais e revistas católicos. Mas, que quem falamos, quando falamos de Deus?

Saturday, October 14, 2006

Crédito sim, esmola não

Os pobres não precisam de esmola, precisam de crédito. Esta é a ideia-base, e muito antiga, do microcrédito de Muhammad Yunus, que ontem ganhou o Prémio Nobel da Paz, juntamente com o Grameen Bank. Jutificação do comité: “Todos os indivíduos têm o potencial e o direito de viver uma vida decente. Em muitas culturas e civilizações, Yunus e o Grameen Bank mostraram que até o mais pobre dos pobres pode trabalhar para alcançar o seu desenvolvimento”.

Este Nobel foi uma óptima notícia para os pobres que nunca tinham ouvido falar de microcrédito. Trouxe visibilidade. Uma ideia e uma pequena quantia podem fazer toda a diferença. Ninguém está destinado à miséria.

O “banqueiro dos pobres”, nunca deu uma esmola (faz questão que todos saibam disso), mas já ajudou 500 milhões de pessoas (ou, como alguns gostam de dizer: “Ajudou a que se ajudassem”). Fez imenso pelo desenvolvimento, “o novo nome da paz”, conforme disse o Papa Paulo VI nos anos 60. Em Portugal, segundo o jornal Público, houve até agora 615 empréstimos, que criaram 711 empregos.

Esta ideia do crédito em vez da esmola encaixa na doutrina moral social católica, que diz que o bem deve ser bem feito. Sem dúvida que há um tipo de caridade que é o bem mal feito (quando a curto, médio ou longo prazo prejudica). Não é caridade, sequer.

Thursday, October 12, 2006

Never ending story

Há dias, numa conversa à mesa, um bispo dizia que o cristianismo é uma conversa que nunca acaba e que isso é mais um motivo para ser cristão. Falava-se a propósito do discurso do Papa e das dificuldades que tem a hermenêutica muçulmana. O islamismo é uma conversa acabada. Está tudo escrito num só livro, está tudo explicado – dispensa-se a exegese e a hermenêutica. No cristianismo, há pluralidade desde o início (quatro evangelhos, não um), muita diferença, logo, motivos para muita conversa. A conversa inacabada, dizia o bispo, já fora notada por um dos discípulos de Cristo: “Só tu tens palavras de vida eterna”.
Lembrei-me desta conversa sobre a conversa ao ler George Steiner: “A pátria judaica é o texto, comprometido com a memória, examinado minuciosamente e objecto de intermináveis comentários (cf. a “análise interminável” de Freud) em qualquer parte do mundo. A mitologia judaica consiste, por excelência, na prolífica crónica das histórias dos Mestres e dos episódios explicativos que acompanham os seus ensinamentos” (“As Lições dos Mestres”, pág. 125).

Wednesday, October 11, 2006


O essencial do cristianismo

Mais um “20 clés pour comprendre”, de Le Monde des Religions, desta vez sobre o cristianismo. As vinte chaves para compreender o cristianismo, em 82 páginas, são:
1 – Jesus e o seu tempo. A Palestina em efervescência.
2 – Jesus visto pelos cristãos. A fé dos discípulos.
3 – Os textos fundadores. O Novo Testamento.
4 – A Igreja primitiva. As primeiras comunidades.
5 – Constantino, imperador cristão. A conversão de Roma.
6 – A Trindade. O fundamento da doutrina cristã.
7 – Os Padres da Igreja. Os primeiros pensadores cristãos.
8 – A vida monástica. Nascimento do monaquismo.
9 – As diferentes Igrejas. Uma grande família dividida.
10 – A questão da salvação. Como aceder à felicidade eterna.
11 – Heresias e inquisição. A Igreja contra a dissidência.
12 – O esoterismo cristão. À procura do sentido escondido.
13 – A mística. A experiência da fé.
14 – Maria e os santos. Nas fontes da piedade popular.
15 – As festas. Celebrar os mistérios.
16 – Os símbolos. Os sinais do divino.
17 – Os clérigos e os sacramentos. O acompanhamento dos fiéis.
18 – Missões, colonizações, cruzadas. Ambiguidades da tarefa missionária.
19 – O diálogo ecuménico. Uma reconciliação difícil.
20 – Os cristãos de hoje. Uma religião fragmentada.

Thursday, September 28, 2006

O Papa falou, o mundo reagiu

Nunca um texto papal foi tão comentado como a aula de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no dia 12 de Setembro. O texto encontra-se em português em www.agencia.ecclesia.pt. Recolho algumas opiniões da imprensa portuguesa.

Bento XVI pode ter deitado uma acha para a fogueira da intolerância, mas usufruiu de uma liberdade, que nem sempre o catolicismo respeitou. Critique-se a falta de sensibilidade. Elogie-se o inalienável direito ao exercício da razão.
António José Teixeira
Diário de Notícias, 16-09-06

O Papa já lamentou o equívoco, mas não pediu desculpa. Não podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignorância, nem pelo teor geral da conferência de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a fé não é separável da razão e que agir irracionalmente “contraria” a natureza de Deus. Não vale a pena entrar nas complexidades do assunto. Basta lembrar que desde o princípio (desde Orígenes, por exemplo) se construiu sobre a fé cristã um dos mais sublimes monumentos à razão humana e que o Ocidente, apesar da “Europa”, não existiria sem ela. A fé muçulmana não produziu nada de remotamente comparável e, durante quinze séculos, sustentou uma civilização frustre e parada. A conferência de Ratisbona reafirmou a essência do cristianismo. Se o Islão se ofendeu, pior para ele.
Vasco Pulido Valente
Público, 17-09-06

Os muçulmanos que reagem de formas (...) tristes e ridículas reagem de forma invariavelmente ignorante, no seu obscurantismo ofuscante e aniquilador da razão, criando, em última instância, obstáculos à sua própria fé. (...) O que não esperava, todavia, era que o líder de uma religião seguida por milhões de crentes recorresse a um exemplo da história, ignorando o pluralismo e diversidade da realidade como são as várias sociedades muçulmanas.
Faranaz Keshavjee
Público, 18-09-06

Bento XVI não é João Paulo II. Mas não poderia ignorar o destino mais do que provável das suas palavras, fosse qual fosse o contexto em que as pronunciou. É, pois, legítimo perguntar se este Papa quer redefinir os termos do diálogo com o Islão estabelecidos pelo seu antecessor. E isso é tanto mais importante quanto a relação entre cristianismo e islamismo pode ser para o seu pontificado o que foi o confronto ideológico entre democracia e comunismo para o do seu antecessor.
Teresa de Sousa
Público, 19-09-06

Joseph Ratzinger não é nem uma estrela de cinema, nem um director de relações públicas. O seu tempo é próprio, e isso pode trazer problemas aos que esperam espectáculo. Mas acusá-lo de começar uma cruzada é ler ao contrário o que foi dito.
Nuno Rogeiro
Correio da Manhã, 19-09-06

A conferência do Papa é um dos textos mais tolerantes que algum papa fez ate hoje, e talvez tenha sido por isso mesmo que foi atacada. Eu penso que há de facto razões para os fundamentalistas atacarem com violência o documento, exactamente pela sua substância e não pela citação fora do contexto. (...) Porque é que o Papa diz isto tudo? Está na lá texto em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fusão pela na tradição grega do logos com o cristianismo, o Papa está a enunciar a tradição cultural da Europa, da história tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Está a falar de religião e de política, de cultura e de pensamento, da União Europeia e da Turquia, do cristianismo e do Islão. Insto sim é que devia ser discutido, isto é que o papa esperava que fosse discutido. E isto é que interpela o Islão, se ele se deixar interpelar.
José Pacheco Pereira
Público, 21-09-06

A vida pública hoje é mais dominada pela emoção do que pela razão. A empatia mediática de João Paulo II contrasta profundamente com o distanciamento frio e cerebral do seu sucessor. Onde o papa polaco fazia de cada homilia um acto de comunhão afectiva com os crentes, Bento XVI profere uma lição assente em princípios e valores abstractamente explanados, deixando aos crentes a responsabilidade de retirarem as conclusões quanto à maneira de viverem a sua fé no quotidiano. (...) Mas mais do que o relato das palavras do Papa feito pelos meios de comunicação acidentais, o que fez a diferença desta “crise” foi a realidade comunicacional do próprio mundo muçulmano, designadamente as cadeias de televisão árabes e o seu impacto junto das respectivas populações. A natureza transnacional destes meios de comunicação produziu nos anos mais recentes um fenómeno novo que importa não menosprezar: é pela via comunicacional que se está a promover a unificação do mundo muçulmano.
António Vitorino
Diário de Notícias, 22-09-06

Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. (...) Não, o Papa não foi mal interpretado. Infelizmente para todos nós, ele foi demasiadamente bem interpretado pelos “ullemas” islâmicos. Era isso mesmo que eles queriam ouvir para legitimarem a sua “jihad”, e agarrarem com ambas as mãos a inesperada oferta papal: em lugar de um obscuro cartunista dinamarquês, agora têm o próprio chefe da cristandade a desafiá-los.
Miguel Sousa Tavares
Expresso, 23-09-06

O papa soube deitar água fria no fanatismo islâmico e no racismo que domina a nova intelectualidade ocidental. Digo-o com gosto.
Daniel Oliveira
Expresso, 23-09-06

Atendendo à crispação actual entre muçulmanos e ocidentais, mais por motivos políticos do que religiosos, a citação que o Papa fez do imperador bizantino sobre Maomé não foi um acidente académico perigoso para a ideologia muçulmana dos nossos dias? (...) Em meu entender, foi infeliz no momento crucial que vivemos. [Os muçulmanos] estão a responder de acordo com a crítica do imperador bizantino.
Joaquim Carreira das Neves
Expresso, 23-09-06

Infelizmente, de modo geral, o Islão ainda não assumiu conquistas fundamentais da modernidade, sem as quais não haverá paz entre as religiões e no mundo: a distinção entre religião e política e a leitura histórico-crítica do Alcorão.
Anselmo Borges
Diário de Notícias, 24-09-06

Ratzinger dez um discurso sobre fé e razão que, obviamente, não foi compreendido no Ocidente porque há cada vez menos fé, no Islão porque há cada vez menos razão.
Paulo Portas
Sol, 23-09-06

Afinal, que pretendia o Prof. Ratzinger com uma transcrição claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e más relações entre Fé, Razão e Violência, não precisava de sair do campo judaico-cristão. A Igreja acolheu a Bíblia hebraica que lê, medita e proclama na sua liturgia, e na qual não existem só maravilhas. Há páginas abomináveis – que alguns julgam essenciais – de "guerra santa". Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vigília Pascal, em que é celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno é o seu amor! (...)
Terá o Prof. Ratzinger esquecido que as insinuações de uma citação ofensiva não iriam ser exploradas como se retratassem a atitude de Bento XVI e a orientação que quer dar ao seu pontificado?
Não creio que o Papa pretenda liquidar o diálogo inter-religioso. A sua preocupação de sempre tem sido mostrar a originalidade do Cristianismo e, dentro desta, a do Catolicismo. Louvado seja! Mas, para isso, não é lícito desfigurar os outros percursos religiosos. Na Universidade de Ratisbona, o Prof. Ratzinger talvez não tenha sido suficientemente autocrítico para vencer essa tentação. Agora, tem de ser a vasta diplomacia vaticana a colar os estilhaços de uma bomba verbal. Como Deus não é perverso, acabará – dizem os portugueses – por escrever direito por linhas tortas.
Bento Domingues
Público, 24-09-06

O Papa está a ganhar o desafio. É a própria reacção islâmica que fortalece a sua argumentação. O erro dos ulemas muçulmanos ou a incendiária campanha da Al Jazira assentam num erro de avaliação. Não estamos perante uma réplica dos cartoons dinamarqueses, insulto grosseiro a uma religião. Bento XVI interpelou intelectualmente o Islão. Em lugar de uma resposta teológica ou histórica dos ulemas, houve uma explosão de violência (...).
Jorge Almeida Fernandes
Público, 24-09-06

É muito animador verificar que muitas vozes de não crentes exprimiram nesta ocasião a sua convergência filosófica com as teses defendidas pelo Papa, que é atacado por sectores integristas do Islão. Creio que é preciso fazer suceder a este episódio a defesa e a promoção de um mais intenso e respeitoso diálogo universal entre a razão e a fé, entre a laicidade e as religiões. Se lançado em reciprocidade com o Islão, esse diálogo poderia, e em sinergia com o diálogo inter-religioso, que já se iniciou, abrir uma nova época na vida interior do próprio Islão e do “ocidente”, e nas suas relações recíprocas. O que seria verdadeiramente histórico.
Mário Pinto
Público, 25-09-06