Tuesday, August 04, 2009

temporariamente off

Thursday, March 01, 2007

Cientistas pouco esclarecidos

Poderá um cientista ou divulgador de ciência ignorar a História da Ciência ou ter dela visões sectárias? Aparentemente, não. Mas na prática, sim. É o que acontece muitas vezes. Em dois encontros públicos recentes, em Aveiro, com pessoas de elevada craveira, notei tomadas de posição que de alguma forma rebaixam ou desprezam a fé cristã no diálogo com as ciências naturais. Crentes como eu haveria com certeza na assembleia. Mas é feio desautorizar os convidados. Pelo que eu e os outros optamos pelo silêncio, com o risco de a asneira, à força de tanto ser repetida, ganhar aparência de verdade.

Num desses encontros, dizia o orador que com a ciência é possível o diálogo e a discussão, porque o seu método é o experimental. Levantam-se hipóteses, geram-se teorias, elaboram-se leis e tudo é discutível se entretanto surgirem novas hipóteses, novas teorias e novas leis, submetidas ao escrutínio da experiência. Com a religião, dizia a autoridade ligada a uma das fundações com mais prestígio na divulgação científica, tudo é diferente. O seu método é a revelação, logo não permite discussão, até porque a religião não tem hipóteses nem teorias, mas dogmas.

Noutro, dizia o divulgador que, sendo astrónomo, não podia “acreditar no que dizem os astrólogos, os senhores padres ou outras superstições”. Creio que não erro na frase anterior nem na expressão seguinte. Prescindia dessas “muletas”, embora respeitasse quem delas precisasse.

Não me espanta que não saibam grande coisa de religião e, portanto, confundam fé e religião com superstição e astrologia (esquecendo que a verdadeira fé é inimiga da superstição e da astrologia), ou que ignorem que os dogmas também são fruto de discussão, vivências, história, hipóteses. E que estão sujeitos a evolução e a novos olhares. Admira-me é que não saibam de história da ciência. Se soubessem, notariam que foi graças ao cristianismo e ao Criador transcendente que o céu ficou limpo de deuses e figuras mitológicas, logo, foi possível olhar pelo telescópio e pensar que no aparente caos das estrelas e dos planetas há leis racionais a descobrir. Notariam que as universidades, as grandes construtoras do saber no mundo ocidental, nasceram à sombra das catedrais medievais. Notariam que o surgimento da ciência moderna na Europa não foi uma casualidade.

A ciência podia ter nascido na Grécia Antiga, ou no Médio Oriente árabe florescente, ou na Índia e na China. Mas tal não aconteceu. Surgiu precisamente na Europa. E porquê? Hoje é dado consensual que só no Ocidente europeu havia um quadro mental em que a ciência, com o seu método experimental, pudesse florescer.

E que quadro era esse? Era um espaço espiritual com duas características fundamentais. A primeira é precisamente a fé num Deus Criador (o de Jesus Cristo, pois claro). Sendo Criador, racional e bondoso, só poderia ter criado a natureza segundo leis racionais, estáveis, possíveis de descobrir pelo ser humano igualmente racional (“criado à sua imagem e semelhança”). Sendo um Deus pessoal, estabelecia diálogo com o ser humano através da natureza. Num quadro mental politeísta, a ciência pôde atingir picos interessantes (Grécia antiga, Índia, China), mas nunca adquiriu sustentabilidade. O capricho de um deus qualquer acabava por gorar a racionalidade científica.

A segunda característica fundamental é a noção de história. Foi no judeo-cristianismo (Moisés e Jesus) que surgiu a noção de história linear, isto é, uma história feita de evolução. Com altos e baixos, é certo, mas em progresso. As Alianças de Moisés (a velha) e de Jesus (a nova) constituíram sempre marcos no tempo contra o eterno retorno ou a concepção cíclica do tempo (a começar por aquela que imaginava uma “idade de ouro” no passado e tempos decadentes no presente). Esta consciência da história, da evolução e da não repetição do tempo, foi (e é) igualmente fundamental para o progresso científico.

Por fim, surgem agora cientistas e filósofos da ciência (ou seja, epistemólogos) a dizer que só a racionalidade de base cristã pode salvar a ciência de um grande perigo que a mina desde o seu interior: o cepticismo que tudo relativiza e destrói as concepções morais fundamentais.

Convém que os cientistas, espíritos críticos, conheçam um pouco mais da história da ciência, porque, como bem sabem, quem não distingue… confunde.

Thursday, October 19, 2006


Science&Vie dedica-se aos milagres

O numero 236 “hors série” da Science&Vie intitula-se “Les miracles. Concevoir l’inconcevable”. É excelente, como todos os especiais desta revista. O milagre apenas é abordado como “singularidade científica” ou “excepção médica”, nunca como mensagem de salvação, nunca na perspectiva bíblica (sinal extraordinário + mensagem). Não há teólogos. Só cientistas, epistemólogos e filósofos. Mas, mesmo assim, excelente como ponto de partida, mesmo quando já ninguém usa o milagre no esforço de justificar a credibilidade da fé cristã.

Wednesday, October 18, 2006

Deus, que Deus?

Diz Anselmo Borges na crónica do DN de 15 de Outubro: “Não há dúvida de que hoje, concretamente na Europa, há uma crise da religião, que é sobretudo uma crise de Deus. Basta perguntar, se modo simples: para quantos é que Deus ainda conta realmente nas suas decisões vitais, tanto no domínio pessoal como colectivo?”

A questão é pertinente e o padre filósofo preconiza uma “mística do quotidiano”. Mas teremos nós, sociedade europeia, saudades do tempo em que Deus contava nas decisões pessoais e colectivas? Esse tempo era melhor? E depois, a grande questão: de que Deus falamos quando falamos de Deus? Nunca daí conseguimos sair.

O que é Deus contar nas decisões pessoais e colectivas? Como é que isso se faz, sem falar de pecado (as decisões humanas contra Deus)? Como pode existir o pecado no meio do relativismo e do psicologismo (aquele que quer evitar os traumas de uma educação rígida e/ou religiosa, por exemplo).

Mais: Deus nas decisões colectivas e pessoais... não é isso que acontece nos fundamentalismos?
O apagamento de Deus na sociedade contemporânea e dos seus sucedâneos (o pecado, os sacramentos – sinais do sagrado, o céu e o inferno, o valor do sacrifício, a oração) não afectam apenas a sociedade. Afectam a Igreja. Numa recente reunião em que se debatia o laicismo, um alto responsável dizia: “Se fosse há 30 anos, estávamos aqui a discutir o céu e o inferno, agora estamos a falar de laicismo, laicidade e presença da Igreja na sociedade”. Dizia isso como sinal de atenção da Igreja aos problemas do mundo. Mas a minha leitura é outra: significa a perda de significado do que é intrinsecamente religioso (e que por isso ilumina ou obscurece toda a vida humana), e irrelevância da própria Igreja. É que nem esta fala de Deus, do céu e o inferno, do pecado e da graça. E se fala, fala com as categorias do passado, as quais, de tão conotadas com outras épocas, foram necessariamente abandonadas. A Igreja é mais reflexo da sociedade do que fermento.

O problema, ao contrário do que dizia Anselmo Borges, não é o apagamento de Deus da sociedade. É o apagamento de Deus da Igreja. Talvez apagamento seja demasiado forte. Digamos antes: o modo irrelevante de falar de Deus e de Jesus Cristo nas homilias, nos livros, nos jornais e revistas católicos. Mas, que quem falamos, quando falamos de Deus?

Saturday, October 14, 2006

Crédito sim, esmola não

Os pobres não precisam de esmola, precisam de crédito. Esta é a ideia-base, e muito antiga, do microcrédito de Muhammad Yunus, que ontem ganhou o Prémio Nobel da Paz, juntamente com o Grameen Bank. Jutificação do comité: “Todos os indivíduos têm o potencial e o direito de viver uma vida decente. Em muitas culturas e civilizações, Yunus e o Grameen Bank mostraram que até o mais pobre dos pobres pode trabalhar para alcançar o seu desenvolvimento”.

Este Nobel foi uma óptima notícia para os pobres que nunca tinham ouvido falar de microcrédito. Trouxe visibilidade. Uma ideia e uma pequena quantia podem fazer toda a diferença. Ninguém está destinado à miséria.

O “banqueiro dos pobres”, nunca deu uma esmola (faz questão que todos saibam disso), mas já ajudou 500 milhões de pessoas (ou, como alguns gostam de dizer: “Ajudou a que se ajudassem”). Fez imenso pelo desenvolvimento, “o novo nome da paz”, conforme disse o Papa Paulo VI nos anos 60. Em Portugal, segundo o jornal Público, houve até agora 615 empréstimos, que criaram 711 empregos.

Esta ideia do crédito em vez da esmola encaixa na doutrina moral social católica, que diz que o bem deve ser bem feito. Sem dúvida que há um tipo de caridade que é o bem mal feito (quando a curto, médio ou longo prazo prejudica). Não é caridade, sequer.

Thursday, October 12, 2006

Never ending story

Há dias, numa conversa à mesa, um bispo dizia que o cristianismo é uma conversa que nunca acaba e que isso é mais um motivo para ser cristão. Falava-se a propósito do discurso do Papa e das dificuldades que tem a hermenêutica muçulmana. O islamismo é uma conversa acabada. Está tudo escrito num só livro, está tudo explicado – dispensa-se a exegese e a hermenêutica. No cristianismo, há pluralidade desde o início (quatro evangelhos, não um), muita diferença, logo, motivos para muita conversa. A conversa inacabada, dizia o bispo, já fora notada por um dos discípulos de Cristo: “Só tu tens palavras de vida eterna”.
Lembrei-me desta conversa sobre a conversa ao ler George Steiner: “A pátria judaica é o texto, comprometido com a memória, examinado minuciosamente e objecto de intermináveis comentários (cf. a “análise interminável” de Freud) em qualquer parte do mundo. A mitologia judaica consiste, por excelência, na prolífica crónica das histórias dos Mestres e dos episódios explicativos que acompanham os seus ensinamentos” (“As Lições dos Mestres”, pág. 125).

Wednesday, October 11, 2006


O essencial do cristianismo

Mais um “20 clés pour comprendre”, de Le Monde des Religions, desta vez sobre o cristianismo. As vinte chaves para compreender o cristianismo, em 82 páginas, são:
1 – Jesus e o seu tempo. A Palestina em efervescência.
2 – Jesus visto pelos cristãos. A fé dos discípulos.
3 – Os textos fundadores. O Novo Testamento.
4 – A Igreja primitiva. As primeiras comunidades.
5 – Constantino, imperador cristão. A conversão de Roma.
6 – A Trindade. O fundamento da doutrina cristã.
7 – Os Padres da Igreja. Os primeiros pensadores cristãos.
8 – A vida monástica. Nascimento do monaquismo.
9 – As diferentes Igrejas. Uma grande família dividida.
10 – A questão da salvação. Como aceder à felicidade eterna.
11 – Heresias e inquisição. A Igreja contra a dissidência.
12 – O esoterismo cristão. À procura do sentido escondido.
13 – A mística. A experiência da fé.
14 – Maria e os santos. Nas fontes da piedade popular.
15 – As festas. Celebrar os mistérios.
16 – Os símbolos. Os sinais do divino.
17 – Os clérigos e os sacramentos. O acompanhamento dos fiéis.
18 – Missões, colonizações, cruzadas. Ambiguidades da tarefa missionária.
19 – O diálogo ecuménico. Uma reconciliação difícil.
20 – Os cristãos de hoje. Uma religião fragmentada.