Wednesday, July 30, 2003

A arte de conciliar os opostos

Escreve José Manuel Pureza (Mensageiro de Santo António [revista dos franciscanos conventuais portugueses], Julho/agosto de 2003):

Deixem-me ser franco: na nossa Igreja há, muitas vezes, uma pastoral de meias-tintas. Na acção social, na relação com a cultura e os intelectuais, na liturgia, há uma estranha tendência para compatibilizar tudo, como se cada opção tivesse a mesma valia que a sua contrária. O velho e o novo, o conciliar e o pré-conciliar, o arrojado e o resignado são apadrinhados como se não houvesse opções a fazer entre eles. Não sou adepto de excluir caminhos ou de qualquer maniqueísmo entre vias correctas e incorrectas. Mas acho que muitas vezes nos falta a coragem de escolher prioridades. E de pagar o preço dessa escolha.

Não gosto do que o autor tem escrito e proferido sobre a globalização. Costuma meter globalização, neoliberalismo e mcdonaldização no mesmo saco. Como se tudo fosse igual. E tudo a caminhar para o pior dos mundos possíveis. Mas a frase citada é excelente para questionar a acção da Igreja, principalmente ao nível dos que detêm mais responsabilidades na acção pastoral. Há de facto um tendência para esta pastoral das meias-tintas. Talvez a génese esteja no chamado “e” católico. Enquanto os protestantes tendem a excluir (“natureza ou graça” “sola Escriptura”, “sola fides”), os católicos tendem a incluir e conciliar (“natureza e graça”, “humano e divino”, “Escrituras e Tradição”, “fé e boas obras”...). Mas este equilíbrio que o catolicismo sempre procurou não se deve confundir com a compatibilização de tudo, com a conciliação dos opostos que mais revela a dificuldade de fazer opções e o desejo de não se dar mal com ninguém. É um bom desejo, esse, mas costuma levar à perda de fidelidade ao espírito de Jesus Cristo. Não se pode ser meias-tintas como não se pode ser sal doce ou fermento que não fermenta.

Tuesday, July 29, 2003

Éfeso e a persistência do cristianismo como causa da queda de Roma

No final de um texto sobre Éfeso (suplemento Fugas, do Público de 26 de Julho de 2003), Luís Maio resume alguns “Mitos e histórias” sobre essa cidade da Ásia Menor. A certa altura diz:

«Cristianização – Durante esta época de ouro, a principal ou mesmo a única desestabilização foi provocada pelo fervor evangelizador dos cristãos, que acabavam detidos ou expulsos pela sua intransigência. Fanatismo que, como se sabe, produziu efeitos quando a sua crença se tornou na religião oficial do império romano no século IV.

Decadência – Os idólatras de Ártemis tinham razão: o esmagamento do culto pelo cristianismo foi o princípio do fim da cidade, que desde o séc. IV viu boa parte da sua população deslocar-se para mais próximo do túmulo de S. João. No século IX, Éfeso já não era mais do que uma aldeia ocupada por uma tribo turca.»

É curiosa esta associação cristianismo/decadência, como se o cristianismo fosse a causa da decadência do império romano. É curiosa e antiga esta associação (outros preferem dizer que o cristianismo é belicista, consoante o jeito da afirmação). É certo que os cristãos, desde o início, se recusaram a adorar o imperador ou a participar nos cultos pagãos. O monoteísmo estrito assim exigia. Mas houve também e sempre a percepção de que o poder, mesmo e principalmente o do imperador, vem de Deus, pelo que há que obedecer-lhe. Uma coisa é adorar o imperador (isso não), outra é o obedecer ao imperador nas questões de Estado (isso sim). Os cristãos sempre souberam distinguir as duas esferas (a césar o é de césar, a Deus o que é de Deus). Daí que, apesar de algumas disputas teológicas sobre se os cristãos deviam ou não participar nos exércitos, os cristãos acabassem por estar na primeira linha da defesa do império contra as invasões bárbaras.

Não se sabe o que o autor pretende dizer com “Fanatismo que, como se sabe, produziu efeitos quando a sua crença se tornou na religião oficial do império romano no século IV”. Como a seguir fala da decadência, somos levados a supor que foi esse o feito.

Acontece que o cristianismo não foi a causa da queda do império. O império há muito se vinha debilitando. Pelo contrário, o cristianismo talvez tenha adiado alguns séculos a queda de Roma. Os cristãos (veja-se a leitura histórico-teológica de Sto Agostinho – o drama que sente por ver a eterna Roma a ser invadida) foram os que mais tentaram defender o império.

Quanto ao deslocamento da cidade para próximo do túmulo de S. João (não será antes do da Virgem?), o autor esquece-se do que ele próprio afirma ao longo do texto principal. A decadência de Éfeso deve-se ao progressivo distanciamento da cidade em relação ao mar (hoje, Salçuk, na Turquia). Enquanto foi um porto importante da Ásia Menor, a cidade floresceu. À medida que o mar recuou (hoje as ruínas estão oito km do mar) a cidade foi entrando em decadência. O túmulo de S. João (isso sim, muito provavelmente um mito) é uma mera circunstância.

Se ao autor soubesse que S. Paulo escreveu uma Carta a Éfeso (ou melhor: é-lhe atribuída), talvez não hesitasse em atribuir a essa epístola a decadência dessa cidade que chegou a ser uma das capitais imperiais do Oriente. Sim, nos Actos do Apóstolos diz-se que os comerciantes de Éfeso querem perseguir Paulo porque este apóstolo, anunciando o cristianismo, estraga-lhes o negócio de miniaturas do templo de Ártemis (uma das sete maravilhas do mundo antigo). Já agora, o primeiro templo de Ártemis tinha sido destruído no séc. IV a.C. por um incêndio ateado por um bêbado. Seria já um cristão? Só faltava afirmar isso.

Friday, July 18, 2003

O evangelho segundo The Matrix - I

Muito se tem escrito sobre as influências que transparecem na triologia The Matrix: física quântica, budismo zen, kung fu de Hong Kong, filosofia, orientalismo...

Provavelmente, cada pessoa vê no filme o que mais desperta os seus próprios interesses. Uns talvez olhem mais para as marcas de óculos, armas, telemóveis, motas ou carros, outros para a ciberfilosofia (em última análise, a lógica da realidade virtual gerada pela Matrix, o programa de computador que controla a vida), ou para a matemática... Mas o que me parece realmente decisivo no filme é a leitura religiosa.

Em relação a este aspecto tem surgido também uma série de leituras que vão desde a maçonaria às religiões orientais, passando pelas religiões mistéricas greco-romanas.
Em português ainda não vi nada escrito sobre a matéria. Mas em inglês (e mesmo em espanhol), não faltam sites e artigos na imprensa escrita sobre o assunto – o que não poderia deixar de ser tendo em conta a paixão gerada pelo fenómeno Matrix.
Há mesmo debates interessantes e profundos sobre a mensagem de The Matrix na perspectiva religiosa: se há ou não uma mensagem genuinamente religiosa; se trata apenas do aproveitamento do imaginário religioso; se estamos perante questões de carácter religioso (salvação, sentido da realidade, libertação)...

Para já (estamos apenas no primeiro texto sobre assunto – e isto promete mais do que uma triologia), gostava de apontar alguns aspectos que ligam este filme ao universo judaico-cristão.

* Neo, o herói do filme, é o libertador, o messias. Neo quer dizer novo, tal como Jesus nos textos bíblicos é o Homem Novo. Por outro lado, Neo é o nickmane de Thomas Anderson. É um título, tal como Cristo (messias) é um título de Jesus. Anderson, por sua vez, significa “Filho” (son, em inglês) de “Homem” (aner/andros, homem, em grego), um título que Jesus usa com frequência no Novo Testamento. Exegetas há que dizem que esse título terá sido mesmo o único dado por Jesus a si próprio.

* Neo (com as mesmas palavras escreve-se One – o eleito – e eon, o Ser, da filosofia aristotélica) é reconhecido por Morfeus, tal como Jesus Cristo é apontado por João Baptista nos Evangelhos.

* Zion é a cidade onde ainda há um resto de homens livres. Zion, já várias pessoas o disseram, é Sião, um dos nomes dados à cidade de David e do Messias da Bíblia, ou seja, Jerusalém. O que ainda não se disse é que na Bíblia há um “resto de Sião” que espera o Messias, quando todo a nação foi derrotado pelos invasores (ora assírios, ora babilónios, ora gregos, ora romanos...) – é o que se passa no filme. Também ainda não vi apontado o “paralelismo geográfico”. Zion fica “no centro da Terra”, segundo o filme, enquanto na Bíblia, Sião/Jerusalém era o centro do mundo, ao ponto de, na Idade Média, todos os mapas apresentarem Jerusalém no ponto central do mapa (o que até nem era difícil tendo em conta os conhecimentos geográficos da época: Europa, parte de África e parte da Ásia).

* Trinity, trindade, é um nome dispensa explicações. No entanto, o papel de Trinity ao longo da triologia assemelha-se ao do Espírito Santo (excepto a parte das armas) naquilo a que na teologia se chama “economia da salvação”. Este ponto tem de ser desenvolvido depois do terceiro episódio da saga.

* A luta de Neo com os 100 Smith tem paralelos com a “luta” de Cristo contra os demónios. Nos evangelhos, a certa altura perguntam a um demónio expulso por Jesus como se chama, ao que ele responde: “Legião”. A luta de Neo é contra uma legião.

* Ainda em relação a Neo (não é verdade que a sua forma de vestir se assemelha a uma padre do tempo que os padres andavam de batina?), ele tem 72 horas pala salvar Zion. Na Bíblia, Jesus dispõe de 72 discípulos para o seu plano de salvação.

* Nebuchadnezzar, nome da nave dos resistentes, é o nome inglês de Nabucodonosor, imperador da Babilónia que invade e destrói Jerusalém/Sião em 587 a.C. Isto até parece um paralelismo antitético. Porém, acontece que se formos à Bíblia, ao livro que mais fala desse imperador, o Livro de Daniel, e procurarmos a passagem 3,14 (número que aparece várias vezes no filme e para o qual têm aparecido explicações que vão desde o Pi a uma região do cortex cerebral) encontramos nem mais nem menos isto: «Disse-lhes Nabucodonosor: “Chadrac, Mecha e Abed-Nego [três amigos judeus de Daniel, exilados na Babilónia, mas fiéis ao judaísmo], é verdade que rejeitais o culto aos meus deuses e a adoração à estátua de ouro eregida por mim?”»

Há muitos outros aspectos que aproximam o filme do universo judaico-crtistão. É fácil encontrar sites sobre o assunto. No entanto, estes, referidos desta forma, não os vi em lado nenhum. Mas há mais pano para mangas. Ou... To be continued…

Sunday, July 13, 2003

Há teólogos em Portugal?
No Público de domingo, 13 de Julho, Bento Domingues, a propósito de um livro que aconselha para evitar a apatia cultural das férias (Enigma de Deus, da Matéria e do Homem , de Inka Kubel, Editoral Notícias), diz o que pode ser o trabalho da teologia:

“A teologia como linguagem reflexiva da fé supõe a carga de razão inscrita na loucura da Cruz e serve-se dos recursos da linguagem constituída no decurso da hominização.
A questão de sempre é esta; como construir uma linguagem de interpretação que não seja reducionista nem da fé nem da razão, mas um idioma no qual brilhe o mistério de ambas? A teologia, para ser um projecto sustentável, não pode ser nem a simples reprodução de referências bíblicas, nem a reprodução de um discurso filosófico ou científico. Exige uma linguagem nova incendiada por esses dois lumes.”

Por este excerto é fácil constatar que não há teólogos em Portugal. Quem é que reflecte as questões actuais com fé e razão, sem as reduzir, usando a linguagem das ciências e a da Cruz?

Bento Domingues já foi considerado um “teólogo do quotidiano”. Creio que a expressão era esta e era de António Marujo, jornalista do Público. O dominicano vai reflectindo alguma actualidade cultural. Mas mesmo essa reflexão não é sistemática, nem profunda. Nem podia ser, nas páginas de um jornal.

Exceptuando esse teólogo, alguém conhece mais algum? Não estão todos demasiado dentro das igrejas ou das faculdades de teologia a reflectirem para si próprios ou sobre temas históricos e bíblicos para as páginas de revistas? E saem essas revistas para fora do círculo professores/alunos?

Não há teologia em Portugal, embora haja um mundo de questões a precisar de reflexão que use a razão e a luz que vem da loucura da Cruz. Havemos de enunciar algumas dessas questões.

Saturday, July 12, 2003

Deus é Cigano

Fernanda Reis, responsável diocesana pela pastoral dos ciganos da diocese de Lisboa, dá uma entrevista muito estimulante à agência Ecclesia (8 de Julho) sobre o trabalho pastoral com ciganos. A entrevista teve como título “Deus é uma espécie de cigano na máxima perfeição”, mas não fala de Deus. Por outro lado, não sei porquê este “é uma espécie de...” Chamar cigano a Deus constitui alguma ofensa? Acho é que revela, ainda, o nosso preconceito. Tirava-se o "uma espécie de" e ficava mais directo e mais conciso.

De entrevista retiro os seguintes pontos sobre os ciganos:
* o racismo em relação ao ciganos baseia-se em mitos;
* o problema habitacional é um dos maiores para os ciganos;
* é difícil entrar na mentalidade dos ciganos;
* é um grupo em franca desvantagem em relação à sociedade maioritária;
* os mediadores culturais funcionam como uma ponte para as comunidades
* os ciganos têm grande disponibilidade para ajudar o outro que passa pior do que eu, uma solidariedade quase espontânea;
* obrigação de fidelidade cega à família, mesmo em caso de ilegalidades ou criminalidade
* andam pela Igreja Evangélica de Filadélfia, onde as celebrações são mais vivas e os pastores são ciganos.

Se Deus é cigano, na máxima perfeição, então:
* o ateísmo baseia-se em mitos;
* o problema habitacional (basta ver algumas igrejas) é um dos maiores para Deus (mas ele prefere habitar em pessoas, não é?);
* é difícil entrar na mentalidade de Deus (a teologia tradicional diria que só raciocinamos com critérios do mundo);
* é um grupo (a Trindade, comunidade divina) em desvantagem, basta pensar na progressão dos horóscopos, New Age, e todas as religiões light;
* precisa de mediadores culturais (padres? - mas será que estes têm realmente condições para mediar?; cristãos?);
* tem uma solidariedade espontânea – disso não duvido, apesar de nem sempre a solidariedade de Deus ser a que eu desejo, mas esse é outro problema;
* obrigação cega de fidelidade – outra coisa não seria de esperar de Deus. Deus não pode ser infiel, mesmo sendo sumamente livre. Porque a máxima bondade aliada à máxima liberdade só pode dar máxima fidelidade.
* anda por outras igrejas – claro que sim, e por outras religiões, e por outras práticas, e por outras concepções. Deus é nómada, ainda mais do que os ciganos, que estão a ficar sedentários.

Os ciganos podem estar a deixar de ser ciganos. Deus não. Ainda bem.