Tuesday, July 29, 2003

Éfeso e a persistência do cristianismo como causa da queda de Roma

No final de um texto sobre Éfeso (suplemento Fugas, do Público de 26 de Julho de 2003), Luís Maio resume alguns “Mitos e histórias” sobre essa cidade da Ásia Menor. A certa altura diz:

«Cristianização – Durante esta época de ouro, a principal ou mesmo a única desestabilização foi provocada pelo fervor evangelizador dos cristãos, que acabavam detidos ou expulsos pela sua intransigência. Fanatismo que, como se sabe, produziu efeitos quando a sua crença se tornou na religião oficial do império romano no século IV.

Decadência – Os idólatras de Ártemis tinham razão: o esmagamento do culto pelo cristianismo foi o princípio do fim da cidade, que desde o séc. IV viu boa parte da sua população deslocar-se para mais próximo do túmulo de S. João. No século IX, Éfeso já não era mais do que uma aldeia ocupada por uma tribo turca.»

É curiosa esta associação cristianismo/decadência, como se o cristianismo fosse a causa da decadência do império romano. É curiosa e antiga esta associação (outros preferem dizer que o cristianismo é belicista, consoante o jeito da afirmação). É certo que os cristãos, desde o início, se recusaram a adorar o imperador ou a participar nos cultos pagãos. O monoteísmo estrito assim exigia. Mas houve também e sempre a percepção de que o poder, mesmo e principalmente o do imperador, vem de Deus, pelo que há que obedecer-lhe. Uma coisa é adorar o imperador (isso não), outra é o obedecer ao imperador nas questões de Estado (isso sim). Os cristãos sempre souberam distinguir as duas esferas (a césar o é de césar, a Deus o que é de Deus). Daí que, apesar de algumas disputas teológicas sobre se os cristãos deviam ou não participar nos exércitos, os cristãos acabassem por estar na primeira linha da defesa do império contra as invasões bárbaras.

Não se sabe o que o autor pretende dizer com “Fanatismo que, como se sabe, produziu efeitos quando a sua crença se tornou na religião oficial do império romano no século IV”. Como a seguir fala da decadência, somos levados a supor que foi esse o feito.

Acontece que o cristianismo não foi a causa da queda do império. O império há muito se vinha debilitando. Pelo contrário, o cristianismo talvez tenha adiado alguns séculos a queda de Roma. Os cristãos (veja-se a leitura histórico-teológica de Sto Agostinho – o drama que sente por ver a eterna Roma a ser invadida) foram os que mais tentaram defender o império.

Quanto ao deslocamento da cidade para próximo do túmulo de S. João (não será antes do da Virgem?), o autor esquece-se do que ele próprio afirma ao longo do texto principal. A decadência de Éfeso deve-se ao progressivo distanciamento da cidade em relação ao mar (hoje, Salçuk, na Turquia). Enquanto foi um porto importante da Ásia Menor, a cidade floresceu. À medida que o mar recuou (hoje as ruínas estão oito km do mar) a cidade foi entrando em decadência. O túmulo de S. João (isso sim, muito provavelmente um mito) é uma mera circunstância.

Se ao autor soubesse que S. Paulo escreveu uma Carta a Éfeso (ou melhor: é-lhe atribuída), talvez não hesitasse em atribuir a essa epístola a decadência dessa cidade que chegou a ser uma das capitais imperiais do Oriente. Sim, nos Actos do Apóstolos diz-se que os comerciantes de Éfeso querem perseguir Paulo porque este apóstolo, anunciando o cristianismo, estraga-lhes o negócio de miniaturas do templo de Ártemis (uma das sete maravilhas do mundo antigo). Já agora, o primeiro templo de Ártemis tinha sido destruído no séc. IV a.C. por um incêndio ateado por um bêbado. Seria já um cristão? Só faltava afirmar isso.

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