Sunday, August 03, 2003

Dia do Senhor

Domingo é o dia do Senhor. Digo-o sem ironias. Digo-o porque, como milhões de cristãos, continuo a ir à missa, mesmo quando os melhores sermões, as melhores interpretações da fé e interpelações de fé, já não vêm de padres. Vêm de outros cristãos. Os padres também são cristãos, mas são cristãos diferentes. Menos reais, Mais virtuais, Menos no mundo, Menos significativos. Por isso, as homilias deste domingo, numa esplanada com vista para o Tejo, foram a entrevista de Sábado, do DNA, do ministro Bagão Félix e o texto da Pública deste domingo sobre o noviciado dos jesuítas em Coimbra.

Da entrevista de Bagão Félix (numa sobre as suas funções actuais como ministro), entre muitas ideias, retenho estas:


A fé é a crença racionalizada. Admito que a crença seja mais “genética” do que a fé. A fé precisa ser estimulada, vivenciada. A crença constrói-se da dúvida. É nos momentos de dúvida que a fé se torna robusta. Nesse sentido, a fé tem que ser um exercício constante.

Deus
Deus é sinónimo de busca incessante, de ser melhor... Por isso é que não percebo o católico não praticante ou o religioso de outra religião não praticante.

Felicidade
A felicidade é atingir o simples. E ao atingir o simples está-se mais perto do absoluto. E portanto está-se mais perto de Deus. É nos momentos em que nos mostramos mais simples que somos mais felizes. O momento de euforia não é um momento simples.
...
A felicidade não é uma fotografia, tem de ser um filme. Tem de ser sustentada. A felicidade é uma noção estrutural.
...
A felicidade não se faz querendo ter mais, faz-se querendo ter manos, Faz-se pela renúncia, não se faz pelo excesso, Somos muito mais felizes quando temos de escolher.


Quanto à reportagem sobre o noviciado dos jesuítas (período de dois anos quem que os futuros jesuítas aprendem a vida da Companhia), sobressai o humor com que neste tipo de comunidades se vive, ao contrário das ideias feitas sobre o clero. O artigo abre logo com uma pérola dos métodos jesuíticos:

“São sete da manhã e de repente uma porta abres-se ano pequeno quarto, o corpo enrola-se na cama enquanto alguém faz barulho, puxa lençóis. Suavemente, o intruso chega-se ao pequeno lavatório,m põe a tampa, abre a torneira, a água corre em fio. As palavras são simples: ‘Isto está a encher. Tu vais levantar-te. A água vai transbordar. Acorda!’”

Fez-me lembrar que no seminário que frequentei havia uma colega que não acordava nem com o Big Ben dentro do quarto, muito menos com salpicos de água ou um banho de imersão. A única maneira de o acordar era tapar-lhe o nariz e esperar que a falta de ar o acordasse. Mas não me lembro de se aplicar o método jesuíta para obrigar a levantar-se da cama. Se calhar era porque os nossos lavatórios não tinham tampas...

A reportagem de Duarte Mexia (com fotos de David Clifford) descreve bem o ritmo de vida do noviciado e dá uma imagem tão real quanto positiva dos jesuítas. Nota-se bem a criatividade, a segurança e a auto-estima típicas dos jesuítas.