Tuesday, September 30, 2003

No País de Deus

A revista UNCUT acaba de lançar o número de Outubro de 2003. O tema de capa é os U2 com o “épico que conquistou o mundo”, The Joshua Tree. A acompanhar a revista vem o disco “In God’s Country – The music that inspired the Joshua Tree”. 24 canções de Elvis a John Lee Hooker, de BB King a Billie Holiday, muitas delas autênticos espirituais, ou antes, gospels.

A relação dos U2 com a religião dava bem um livro. E claro que The Joshua Tree, que na revista chega a ser classificado “o melhor álbum de sempre” (a partir de uma votação no VH1 em Novembro de 2001), teria um lugar de destaque. “Joshua” é o nome hebraico de Jesus, mas há muito mais no álbum e na vida e discografia dos U2 que tem relações com a religião. “I still haven’t found what I’m looking for” é bem o hino de quem quer que continue à procura de algo. E a busca espiritual de certeza que está entre as mais importantes.

As relações da banda irlandesa com a religião são evidentes e inumeráveis. Vamos tentar enumerar algumas nos próximos tempos.
A reforma do Papa

Perante o estado de saúde do Papa, que se agrava de dia para dia, pelo menos foi o que o próprio Ratzinger afirmou a uma revista alemã por estes dias – e se o “Panzer Cardeal” o diz é porque as coisas estão mesmo muito graves -, há habitualmente duas reacções por parte de cristãos ou não cristãos. Uns dizem que este papa dá um magnífico exemplo continuando à frente da Igreja no limite das suas forças. Outros lamentam que ele continue à frente.

Frei Bento Domingues juntou-se recentemente ao primeiro grupo. Afirmou no domingo passado:

«Para além de atentados, quedas e achaques, há 15 anos que o Papa está em agonia, isto é, em luta contra a doença de Parkinson. Na semana passada correram boatos de que a sua capacidade para religar as comunidades católicas espalhadas pelos cinco continentes tinha chegado ao fim.
Aconteça o que acontecer, João Paulo II, na sua debilidade física, obrigou o mundo a não desviar os olhos dos desfigurados pela doença e pelo sofrimento. Deficientes e incapacitados ganharam um rosto público de resistência contra o mal. O ser humano não é só o que aparece nas passagens de modelos e nos concursos de beleza. Os critérios de eficácia na gestão da Igreja do Crucificado não são os únicos que garantem a ressurreição.»

Eu faço parte do segundo grupo, dos que acham que o papa já se devia ter retirado, embora não me reveja no quadro traçado primeiro grupo. É que esses, por vezes, dizem que quem deseja a reforma do papa se esquece que ele dá um grande auxílio à apreciação do valor da velhice, que tem uma força enorme e que com isso faz um grande favor à terceira idade, que é um exemplo magnífico para todo o mundo, que a Igreja não se rege por critérios de eficácia como as empresas ou nações, que...

Por mim, preferia que o papa se retirasse, que escrevesse as suas memórias (de certo que aí poderia fazer um grande favor à terceira idade), que vivesse os últimos dias em paz, pois até o Evangelho diz que os servos humildes, no final da missão, se retiram por terem cumprido o dever.
Desejo que o papa se retire não porque esteja doente, mas porque devia retirar-se como qualquer bispo quando atinge determinada idade. O papado é um serviço e um poder. Como poder que é, devia ser limitado no tempo. Se se acredita que a Igreja é dirigida pelo Espírito Santo, então ninguém é imprescindível (e ainda bem). Ora, por vezes, este papa parece quase pensar que é uma coluna em que se apoia a Igreja, que a leva como “Servo das Dores” (expressão que, obviamente só pode ser aplicado ao Servo de Javé, o Messias).

Queiramos ou não, os papados muito longos fazem pensar que a Igreja está demasiado dependente dessa pessoa. E cada vez mais se acentua a tendência para os papados longos. Os avanços da medicina assim permitem. Devia-se criar uma mentalidade nova nesta questão, a do papado limitado no tempo. Dez anos seria razoável. Ou então, quando chegasse aos setenta, o papa retirava-se. Na viria mal nenhum se houvesse dois ou três “papas” vivos na reforma, como há presidentes ou bispos na reforma.