Monday, October 20, 2003

Science&Vie&Religion
Duas revistas francesas, do mesmo grupo editorial, dedicaram-se recentemente à religião.

A Science&Vie, nº 1003, de Outubro 2003, faz uma análise muito curiosa sobre o ensino religioso nas escolas públicas. “Ensinam-se falsas verdades” é o título do dossiê. Diz a revista que há uma enorme mistura entre “saber” e “crença” (“a coberto da história ensina-se a fé”) e que os manuais foram apanhados em flagrante delito. Nas três religiões principais (judaísmo, cristianismo e islamismo), há mitos que são tomados como história, interpretações uniformistas dos acontecimentos ou mesmo visões da história “contaminadas pela interpretação”.
É uma análise muito interessante e que, com certeza, poderia ser feita em relação aos manuais portugueses, embora no caso da França esta questão seja muito mais premente devido ao modo como entendem a separação Igreja/Estado.

O Les Cahiers de Science&Vie, nº 75, de Junho de 2003, dedica-se à Bíblia (Enquête la Bilbie face aus archéologues. La part du vrai, la part do mythe). Muito equilibrado e muito rigoroso, embora limitado, pois fica-se pelo Antigo Testamento. Não se espere encontrar neste número formas interpretar o texto bíblico, mas antes dados arqueológicos que de facto dão mais veracidade a muito do que se lê no livro dos livros.

Saturday, October 18, 2003

Dogville

O Francisco, meu colega de trabalho, tem razão. Eu tendo a ver em tudo alguma ligação com a religião. Mas é precisamente para isso que existe este blogue. E é por isso que se chama religar. Tudo esteve ligado. Muito ficou desligado. E agora algumas coisas vão ficando religadas. A religião é isso mesmo: religação. (O mesmo se passa com a Grande Rede e os seus links, estabelecendo uma grande comunhão, ainda que mais no campo dos desejos do que no dos factos).

E como foi ele que sugeriu, durante o cinema, “Já tens matéria para o blogue” (como se eu ainda não tivesse reparado), aqui deixo as minhas impressões sobre Dogville.

Dogville pareceu-me uma grande metáfora. Passa-se na América, à sombra das Montanhas Rochosas, embora tenha sido filmado num estúdio da Suécia; e trata da história de uma mulher que, fugida da Máfia, nos anos 30, chega à pacata aldeia, é acolhida, integra-se, desintegram-na, desintegra-se e desintegra-os.
Ser nos Estados Unidos, as Montanhas Rochosas, os anos 30 e a Máfia são apenas pretexto. A história é universal. Os Estados Unidos são apenas um embrulho, embora, passando-se na América, a história chame mais a atenção. Esse país, ou como sede da utopia ou como panaceia dos males do mundo, continua a exercer um fascínio sobre todos os europeus, ainda que na forma de ódio.

Mas talvez conviesse mesmo que se passasse nos Estados Unidos, porque esse é a terra dos messianismos, desde o séc. XVI. E este filme é sobre o messias. Grace (poderia ser mais óbvia a referência ao messias, “a graça de Deus” – graça no sentido de oferta gratuita e imerecida de Deus à Humanidade, que é isso que a teologia diz do Filho) chega à terra. Aparentemente tudo corria bem. Ninguém precisava dela. Mas à medida que ela vai entrando na vida da população, verificamos que afinal todos precisavam dela (ainda que sintam dúvidas em denunciar Grace só porque a Lei assim exige – só S. Paulo, um convertido da Lei judaica à Graça cristã, enunciou e resolveu tão bem este dilema nas suas cartas). E as transformações que acontecem são nitidamente para melhor (nos Evangelhos, na calmia do domínio romano, num momento de completo Pax Romana, surge o Nazareno. No início, as multidões seguem-no. Estão encantadas com o Nazareno). Contudo, a verdade dos habitantes de Dogville acaba por revelar-se e a harmonia quebra-se. Grace passa a ser explorada por quase todos e passa a ser o bode expiatório de tudo. A solução acaba por ser tirar-lhe a liberdade, a morte simbólica (como se o messias fosse crucificado). Acontece então o diálogo com o seu pai (que, avisado pelo outrora apaixonado por Grace, vem à aldeia resgatar a filha), um diálogo sobre o perdão, o poder e a extrema arrogância de tudo perdoar. Grace deixa-se convencer pelo pai e a aldeia acaba por ser dizimada, só se salva o cão, Moses.

Aqui dir-me-ão que a história diverge do pacificação messiânica: o messias cristão nunca poderia agir assim. É certo, mas o dilema em que Grace se vê na conversa com o pai é bem a escolha que o messias tem de fazer no episódio das tentações: ou enveredar pelo caminho do perdão, ou escolher a via do poder que o demónio lhe sugere. Grace escolhe a vida do poder (recebe-o do pai), mas também isso é bíblico. O que acontece a seguir, o holocausto, é a ira do Pai no Antigo Testamento. Grace estava no Novo Testamento (o perdão revigorante), mas regressa ao Antigo. Vejamos: a matança da população, o fogo, o matança das crianças aos olhos da mãe têm nítido paralelos bíblicos: a matança dos egípcios, o fogo dos holocaustos (um deus sedento de sangue e carne), o choro de Raquel por causa da morte do filhos. O regresso ao AT, ao cativeiro do Egipto é dado pela cena final do cão. Moses (Moisés) é o único que se salva, tal como na Bíblia é o único filho de judeu que se safa da morte ordenada pelo faraó. Aliás, “Moisés” quer dizer “tirado das águas”. Tirado das águas para guiar o povo para a libertação. Em Dogville já não há povo, mas é claro que aldeia (a humanidade, o big brother em que vivemos, o tempo da omnipotência e omnisciência de Deus – vê-se através das paredes porque ainda não há a liberdade/privacidade dos tempos messiânicos) ainda está no tempo de Moisés, no AT. A humanidade que pensa que recebeu o messias ainda anda vive os tempos cruéis do AT – parece querer dizer-nos o convertido ao catolicismo Lars von Trier. Ainda está acontecer a passagem de Dogville para Godville.

Tuesday, October 07, 2003

A reforma do Papa – 2

A RTP dedicou o primeiro debate do Prós e Contras renovado (6 de Outubro de 2003) aos 25 anos do pontificado de João Paulo II. A pergunta que andou no ar era: “Se o papa deve resignar...” De um lado, pelo Não, estavam Bagão Félix, Maria José Nogueira Pinto e Victor Feytor Pinto (quem mais poderia ser?). Do lado do sim, pelo menos era de supor que defendessem a resignação, estavam o eterno Eduardo Prado Coelho (mas não há mais ninguém para escolher?!), o socialista e maçon Arnaut e Clara Pinto Correia.

Na generalidade parece-me que o debate falhou, apesar de momentos brilhantes como o do treinador Fernando Santos que, à pergunta da jornalista Fátima de Campos Ferreira se rezava para que o Sporting ganhasse, respondeu que se a oração servisse para isso, uma equipa de monges ganharia o campeonato.

Quanto a mim, o debate falhou por três razões.
1 – Quem defendia que o papa deve continuar a ser papa até morrer invocava o exemplo que dava no limite das duas forças contra a sociedade hedonista e consumista, contra a desvalorização da velhice. Utilizavam-se frases como “o Papa não pode deixar de ser pai” ou “Cristo também não desceu da cruz” ou “Porque ama é que não resigna” ou “Tenho uma eternidade para descansar” (terá dito o papa).
Perante argumentos deste género, temos de perguntar se retirar-se não pode ser sinal de amor, se dar lugar a outros não é igual sinal de confiança na providência de Deus, na orientação do Espírito Santo, se o não resignar não é, afinal, sinal de se julgar insubstituível, sinal de apego ao lugar. Se o bispo de uma diocese deve resignar (sem com isso deixar de poder fazer o bem), porque não deve resignar o Bispo de Roma? E os próximos papas, que poderão viver até aos 90 ou 100 anos, terão de estar na cátedra de Pedro até morrerem? Há uma grande corrente de teólogos que acha que não, que consideram que, graças aos avanços da medicina, a resignação será cada vez mais comum porque não convém nada à Igreja de Cristo que um homem seja eleito aos 60 anos e esteja à frente da Igreja até aos 90 ou 100.
Quanto aos idosos, devem ser valorizados por serem idosos e não por uma papa idoso dar o exemplo ser incansável. Estará com isso João Paulo II a dizer que todos devem continuar à frente das paróquias e das dioceses até aos limites das forças? Ou é um exemplo para a sociedade civil, e nesse caso, os idosos deviam estar até morrer à frente das nações, das empresas, de todos os organismos. Invocar o para defender a terceira ou quarta idade é um argumento muito mau para a terceira idade. Além disso, principalmente na pastoral, há muitos campos em que a acção dos pastores reformados podem fazer muito, mesmo muito. O exemplo mais conhecido será, com certeza, o dos bispos eméritos que se dedicam àquilo que mais gostam e que mais bem lhes faz e que podem desempenhar da melhor forma: retiros, direcção espiritual, memórias, biografias de pessoas que conheceram, etc.

2 – Os do contra nunca invocaram um dado muito simples. O papado é um serviço, mas é também um poder. Como poder que é (ministério), deve ser limitado no tempo. Ora o papado, ao contrário dos outros, sabe-se quando começa, mas não se sabe quando acaba. Não devia ser assim. Devia ter um fim previsto. Nesse sentido, as democracias (com a divisão e delimitação de poderes) são um exemplo. O papado começa bem porque começa com uma eleição. Mas devia ter um fim previsto. A resignação (que, ao contrário do que dizia Feytor Pinto, não aconteceu só com Celestino V) devia ser algo mais comum.

3 – No grupo do contra estavam apenas pessoas que de algum modo se intitulavam como estando fora da Igreja (a Clara Pinto Correi considerava-se católica em autogestão). Escolha errada. Embora pudessem estar lá pessoas desse tipo, deviam estar também católicos convictos que defendessem a resignação do papa, católicos, tão praticantes como os dos prós, que dissessem porque é que não concordam com João Paulo II. É que nem este nem nenhum papa têm o monopólio da fé. Nenhum é insubstituível, repito-me. Apontam o caminho, mas não são o caminho. E também têm contextos que, históricos como somos, necessariamente nos dão uma forma de ser. Penso que é o um serviço à Igreja universal defender a delimitação do papado. Deste em concreto e de todos em geral. É uma questão de princípio. Contra a divinização do papado. Em favor de uma Igreja mais plural, onde o papa seja o primeiro servidor crente e que, como servidor, à maneira do Evangelho, saiba reconhecer que a sua missão chega ao fim e, por isso, há que retirar-se porque outros poderão levar a Igreja a bom porto com a ajuda do mesmo Espírito.

Wednesday, October 01, 2003

O benfiquismo como forma de religião

Quase tudo pode encarnar aquela expressão tão conhecida que é atribuída a Karl Marx, mas que, afinal, parece que é de Engels, “o ópio de povo”. Aliás, nos tempos que correm, não tarda nada, só mesmo a religião (ou melhor, a fé) é que não e ópio (para Jesus Cristo era fermento, um activador sem efeitos secundários nocivos).

Com a ironia própria de quem trabalha para as Produções Fictícias, Ricardo Araújo, um dos autores do gatofedorenteo.blogspot.com e das crónicas do Zé Manel Taxista, fala da sua religião ao Público (26 Set.), o benfiquismo. O que está entre parênteses rectos e comentário meu.

«A obsessão é vivida sem eufemismos e por vezes assume proporções estranhas: durante um jogo sente o coração a bater nas costas; quando o “Glorioso” [um título messiânico, é claro, para quem só podia jogar na “catedral”] perde, sente que a culpa é dele. “Pelo menos sinto que a culpa também é minha, que não fiz tudo o que estava ao meu alcance para o Benfica poder ganhar [a fé precisa de obras]. É uma coisa quase religiosa. Não sei se tem a ver com a culpabilidade cristã, mas é um sentimento de culpabilidade bastante forte” [agora vai ter de expiar a culpa – uma sacrifício]. A comparação religiosa não fica por aqui: quando era pequeno – deveria ter uns seis ou sete anos – o primo levava-o ao estádio [há sempre alguém responsável pela iniciação, um Eli para o Samuel, um João Baptista que aponta o caminho, um profeta, um santo protector], próximo de sua casa, e Ricardo, 29 anos, lembra-se “de subir a Rua dos Soeiros [para chegar a um santuário é sempre necessário subir], olhar para as pessoas e sentir que estava unido a elas [as religiões são sempre coisa de povo, de colectivo, de assembleia]. Suponho que o sentimento era parecido ao que une os peregrinos”[sim, e provavelmente usavam a mesma indumentária: cachecóis, bandeiras como se fossem estandartes de procissões, etc.]».