Dogville
O Francisco, meu colega de trabalho, tem razão. Eu tendo a ver em tudo alguma ligação com a religião. Mas é precisamente para isso que existe este blogue. E é por isso que se chama religar. Tudo esteve ligado. Muito ficou desligado. E agora algumas coisas vão ficando religadas. A religião é isso mesmo: religação. (O mesmo se passa com a Grande Rede e os seus links, estabelecendo uma grande comunhão, ainda que mais no campo dos desejos do que no dos factos).
E como foi ele que sugeriu, durante o cinema, “Já tens matéria para o blogue” (como se eu ainda não tivesse reparado), aqui deixo as minhas impressões sobre Dogville.
Dogville pareceu-me uma grande metáfora. Passa-se na América, à sombra das Montanhas Rochosas, embora tenha sido filmado num estúdio da Suécia; e trata da história de uma mulher que, fugida da Máfia, nos anos 30, chega à pacata aldeia, é acolhida, integra-se, desintegram-na, desintegra-se e desintegra-os.
Ser nos Estados Unidos, as Montanhas Rochosas, os anos 30 e a Máfia são apenas pretexto. A história é universal. Os Estados Unidos são apenas um embrulho, embora, passando-se na América, a história chame mais a atenção. Esse país, ou como sede da utopia ou como panaceia dos males do mundo, continua a exercer um fascínio sobre todos os europeus, ainda que na forma de ódio.
Mas talvez conviesse mesmo que se passasse nos Estados Unidos, porque esse é a terra dos messianismos, desde o séc. XVI. E este filme é sobre o messias. Grace (poderia ser mais óbvia a referência ao messias, “a graça de Deus” – graça no sentido de oferta gratuita e imerecida de Deus à Humanidade, que é isso que a teologia diz do Filho) chega à terra. Aparentemente tudo corria bem. Ninguém precisava dela. Mas à medida que ela vai entrando na vida da população, verificamos que afinal todos precisavam dela (ainda que sintam dúvidas em denunciar Grace só porque a Lei assim exige – só S. Paulo, um convertido da Lei judaica à Graça cristã, enunciou e resolveu tão bem este dilema nas suas cartas). E as transformações que acontecem são nitidamente para melhor (nos Evangelhos, na calmia do domínio romano, num momento de completo Pax Romana, surge o Nazareno. No início, as multidões seguem-no. Estão encantadas com o Nazareno). Contudo, a verdade dos habitantes de Dogville acaba por revelar-se e a harmonia quebra-se. Grace passa a ser explorada por quase todos e passa a ser o bode expiatório de tudo. A solução acaba por ser tirar-lhe a liberdade, a morte simbólica (como se o messias fosse crucificado). Acontece então o diálogo com o seu pai (que, avisado pelo outrora apaixonado por Grace, vem à aldeia resgatar a filha), um diálogo sobre o perdão, o poder e a extrema arrogância de tudo perdoar. Grace deixa-se convencer pelo pai e a aldeia acaba por ser dizimada, só se salva o cão, Moses.
Aqui dir-me-ão que a história diverge do pacificação messiânica: o messias cristão nunca poderia agir assim. É certo, mas o dilema em que Grace se vê na conversa com o pai é bem a escolha que o messias tem de fazer no episódio das tentações: ou enveredar pelo caminho do perdão, ou escolher a via do poder que o demónio lhe sugere. Grace escolhe a vida do poder (recebe-o do pai), mas também isso é bíblico. O que acontece a seguir, o holocausto, é a ira do Pai no Antigo Testamento. Grace estava no Novo Testamento (o perdão revigorante), mas regressa ao Antigo. Vejamos: a matança da população, o fogo, o matança das crianças aos olhos da mãe têm nítido paralelos bíblicos: a matança dos egípcios, o fogo dos holocaustos (um deus sedento de sangue e carne), o choro de Raquel por causa da morte do filhos. O regresso ao AT, ao cativeiro do Egipto é dado pela cena final do cão. Moses (Moisés) é o único que se salva, tal como na Bíblia é o único filho de judeu que se safa da morte ordenada pelo faraó. Aliás, “Moisés” quer dizer “tirado das águas”. Tirado das águas para guiar o povo para a libertação. Em Dogville já não há povo, mas é claro que aldeia (a humanidade, o big brother em que vivemos, o tempo da omnipotência e omnisciência de Deus – vê-se através das paredes porque ainda não há a liberdade/privacidade dos tempos messiânicos) ainda está no tempo de Moisés, no AT. A humanidade que pensa que recebeu o messias ainda anda vive os tempos cruéis do AT – parece querer dizer-nos o convertido ao catolicismo Lars von Trier. Ainda está acontecer a passagem de Dogville para Godville.
O Francisco, meu colega de trabalho, tem razão. Eu tendo a ver em tudo alguma ligação com a religião. Mas é precisamente para isso que existe este blogue. E é por isso que se chama religar. Tudo esteve ligado. Muito ficou desligado. E agora algumas coisas vão ficando religadas. A religião é isso mesmo: religação. (O mesmo se passa com a Grande Rede e os seus links, estabelecendo uma grande comunhão, ainda que mais no campo dos desejos do que no dos factos).
E como foi ele que sugeriu, durante o cinema, “Já tens matéria para o blogue” (como se eu ainda não tivesse reparado), aqui deixo as minhas impressões sobre Dogville.
Dogville pareceu-me uma grande metáfora. Passa-se na América, à sombra das Montanhas Rochosas, embora tenha sido filmado num estúdio da Suécia; e trata da história de uma mulher que, fugida da Máfia, nos anos 30, chega à pacata aldeia, é acolhida, integra-se, desintegram-na, desintegra-se e desintegra-os.
Ser nos Estados Unidos, as Montanhas Rochosas, os anos 30 e a Máfia são apenas pretexto. A história é universal. Os Estados Unidos são apenas um embrulho, embora, passando-se na América, a história chame mais a atenção. Esse país, ou como sede da utopia ou como panaceia dos males do mundo, continua a exercer um fascínio sobre todos os europeus, ainda que na forma de ódio.
Mas talvez conviesse mesmo que se passasse nos Estados Unidos, porque esse é a terra dos messianismos, desde o séc. XVI. E este filme é sobre o messias. Grace (poderia ser mais óbvia a referência ao messias, “a graça de Deus” – graça no sentido de oferta gratuita e imerecida de Deus à Humanidade, que é isso que a teologia diz do Filho) chega à terra. Aparentemente tudo corria bem. Ninguém precisava dela. Mas à medida que ela vai entrando na vida da população, verificamos que afinal todos precisavam dela (ainda que sintam dúvidas em denunciar Grace só porque a Lei assim exige – só S. Paulo, um convertido da Lei judaica à Graça cristã, enunciou e resolveu tão bem este dilema nas suas cartas). E as transformações que acontecem são nitidamente para melhor (nos Evangelhos, na calmia do domínio romano, num momento de completo Pax Romana, surge o Nazareno. No início, as multidões seguem-no. Estão encantadas com o Nazareno). Contudo, a verdade dos habitantes de Dogville acaba por revelar-se e a harmonia quebra-se. Grace passa a ser explorada por quase todos e passa a ser o bode expiatório de tudo. A solução acaba por ser tirar-lhe a liberdade, a morte simbólica (como se o messias fosse crucificado). Acontece então o diálogo com o seu pai (que, avisado pelo outrora apaixonado por Grace, vem à aldeia resgatar a filha), um diálogo sobre o perdão, o poder e a extrema arrogância de tudo perdoar. Grace deixa-se convencer pelo pai e a aldeia acaba por ser dizimada, só se salva o cão, Moses.
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68 Comments:
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