Wednesday, October 01, 2003

O benfiquismo como forma de religião

Quase tudo pode encarnar aquela expressão tão conhecida que é atribuída a Karl Marx, mas que, afinal, parece que é de Engels, “o ópio de povo”. Aliás, nos tempos que correm, não tarda nada, só mesmo a religião (ou melhor, a fé) é que não e ópio (para Jesus Cristo era fermento, um activador sem efeitos secundários nocivos).

Com a ironia própria de quem trabalha para as Produções Fictícias, Ricardo Araújo, um dos autores do gatofedorenteo.blogspot.com e das crónicas do Zé Manel Taxista, fala da sua religião ao Público (26 Set.), o benfiquismo. O que está entre parênteses rectos e comentário meu.

«A obsessão é vivida sem eufemismos e por vezes assume proporções estranhas: durante um jogo sente o coração a bater nas costas; quando o “Glorioso” [um título messiânico, é claro, para quem só podia jogar na “catedral”] perde, sente que a culpa é dele. “Pelo menos sinto que a culpa também é minha, que não fiz tudo o que estava ao meu alcance para o Benfica poder ganhar [a fé precisa de obras]. É uma coisa quase religiosa. Não sei se tem a ver com a culpabilidade cristã, mas é um sentimento de culpabilidade bastante forte” [agora vai ter de expiar a culpa – uma sacrifício]. A comparação religiosa não fica por aqui: quando era pequeno – deveria ter uns seis ou sete anos – o primo levava-o ao estádio [há sempre alguém responsável pela iniciação, um Eli para o Samuel, um João Baptista que aponta o caminho, um profeta, um santo protector], próximo de sua casa, e Ricardo, 29 anos, lembra-se “de subir a Rua dos Soeiros [para chegar a um santuário é sempre necessário subir], olhar para as pessoas e sentir que estava unido a elas [as religiões são sempre coisa de povo, de colectivo, de assembleia]. Suponho que o sentimento era parecido ao que une os peregrinos”[sim, e provavelmente usavam a mesma indumentária: cachecóis, bandeiras como se fossem estandartes de procissões, etc.]».

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