A reforma do Papa – 2
A RTP dedicou o primeiro debate do Prós e Contras renovado (6 de Outubro de 2003) aos 25 anos do pontificado de João Paulo II. A pergunta que andou no ar era: “Se o papa deve resignar...” De um lado, pelo Não, estavam Bagão Félix, Maria José Nogueira Pinto e Victor Feytor Pinto (quem mais poderia ser?). Do lado do sim, pelo menos era de supor que defendessem a resignação, estavam o eterno Eduardo Prado Coelho (mas não há mais ninguém para escolher?!), o socialista e maçon Arnaut e Clara Pinto Correia.
Na generalidade parece-me que o debate falhou, apesar de momentos brilhantes como o do treinador Fernando Santos que, à pergunta da jornalista Fátima de Campos Ferreira se rezava para que o Sporting ganhasse, respondeu que se a oração servisse para isso, uma equipa de monges ganharia o campeonato.
Quanto a mim, o debate falhou por três razões.
1 – Quem defendia que o papa deve continuar a ser papa até morrer invocava o exemplo que dava no limite das duas forças contra a sociedade hedonista e consumista, contra a desvalorização da velhice. Utilizavam-se frases como “o Papa não pode deixar de ser pai” ou “Cristo também não desceu da cruz” ou “Porque ama é que não resigna” ou “Tenho uma eternidade para descansar” (terá dito o papa).
Perante argumentos deste género, temos de perguntar se retirar-se não pode ser sinal de amor, se dar lugar a outros não é igual sinal de confiança na providência de Deus, na orientação do Espírito Santo, se o não resignar não é, afinal, sinal de se julgar insubstituível, sinal de apego ao lugar. Se o bispo de uma diocese deve resignar (sem com isso deixar de poder fazer o bem), porque não deve resignar o Bispo de Roma? E os próximos papas, que poderão viver até aos 90 ou 100 anos, terão de estar na cátedra de Pedro até morrerem? Há uma grande corrente de teólogos que acha que não, que consideram que, graças aos avanços da medicina, a resignação será cada vez mais comum porque não convém nada à Igreja de Cristo que um homem seja eleito aos 60 anos e esteja à frente da Igreja até aos 90 ou 100.
Quanto aos idosos, devem ser valorizados por serem idosos e não por uma papa idoso dar o exemplo ser incansável. Estará com isso João Paulo II a dizer que todos devem continuar à frente das paróquias e das dioceses até aos limites das forças? Ou é um exemplo para a sociedade civil, e nesse caso, os idosos deviam estar até morrer à frente das nações, das empresas, de todos os organismos. Invocar o para defender a terceira ou quarta idade é um argumento muito mau para a terceira idade. Além disso, principalmente na pastoral, há muitos campos em que a acção dos pastores reformados podem fazer muito, mesmo muito. O exemplo mais conhecido será, com certeza, o dos bispos eméritos que se dedicam àquilo que mais gostam e que mais bem lhes faz e que podem desempenhar da melhor forma: retiros, direcção espiritual, memórias, biografias de pessoas que conheceram, etc.
2 – Os do contra nunca invocaram um dado muito simples. O papado é um serviço, mas é também um poder. Como poder que é (ministério), deve ser limitado no tempo. Ora o papado, ao contrário dos outros, sabe-se quando começa, mas não se sabe quando acaba. Não devia ser assim. Devia ter um fim previsto. Nesse sentido, as democracias (com a divisão e delimitação de poderes) são um exemplo. O papado começa bem porque começa com uma eleição. Mas devia ter um fim previsto. A resignação (que, ao contrário do que dizia Feytor Pinto, não aconteceu só com Celestino V) devia ser algo mais comum.
3 – No grupo do contra estavam apenas pessoas que de algum modo se intitulavam como estando fora da Igreja (a Clara Pinto Correi considerava-se católica em autogestão). Escolha errada. Embora pudessem estar lá pessoas desse tipo, deviam estar também católicos convictos que defendessem a resignação do papa, católicos, tão praticantes como os dos prós, que dissessem porque é que não concordam com João Paulo II. É que nem este nem nenhum papa têm o monopólio da fé. Nenhum é insubstituível, repito-me. Apontam o caminho, mas não são o caminho. E também têm contextos que, históricos como somos, necessariamente nos dão uma forma de ser. Penso que é o um serviço à Igreja universal defender a delimitação do papado. Deste em concreto e de todos em geral. É uma questão de princípio. Contra a divinização do papado. Em favor de uma Igreja mais plural, onde o papa seja o primeiro servidor crente e que, como servidor, à maneira do Evangelho, saiba reconhecer que a sua missão chega ao fim e, por isso, há que retirar-se porque outros poderão levar a Igreja a bom porto com a ajuda do mesmo Espírito.
A RTP dedicou o primeiro debate do Prós e Contras renovado (6 de Outubro de 2003) aos 25 anos do pontificado de João Paulo II. A pergunta que andou no ar era: “Se o papa deve resignar...” De um lado, pelo Não, estavam Bagão Félix, Maria José Nogueira Pinto e Victor Feytor Pinto (quem mais poderia ser?). Do lado do sim, pelo menos era de supor que defendessem a resignação, estavam o eterno Eduardo Prado Coelho (mas não há mais ninguém para escolher?!), o socialista e maçon Arnaut e Clara Pinto Correia.
Na generalidade parece-me que o debate falhou, apesar de momentos brilhantes como o do treinador Fernando Santos que, à pergunta da jornalista Fátima de Campos Ferreira se rezava para que o Sporting ganhasse, respondeu que se a oração servisse para isso, uma equipa de monges ganharia o campeonato.
Quanto a mim, o debate falhou por três razões.
1 – Quem defendia que o papa deve continuar a ser papa até morrer invocava o exemplo que dava no limite das duas forças contra a sociedade hedonista e consumista, contra a desvalorização da velhice. Utilizavam-se frases como “o Papa não pode deixar de ser pai” ou “Cristo também não desceu da cruz” ou “Porque ama é que não resigna” ou “Tenho uma eternidade para descansar” (terá dito o papa).
Perante argumentos deste género, temos de perguntar se retirar-se não pode ser sinal de amor, se dar lugar a outros não é igual sinal de confiança na providência de Deus, na orientação do Espírito Santo, se o não resignar não é, afinal, sinal de se julgar insubstituível, sinal de apego ao lugar. Se o bispo de uma diocese deve resignar (sem com isso deixar de poder fazer o bem), porque não deve resignar o Bispo de Roma? E os próximos papas, que poderão viver até aos 90 ou 100 anos, terão de estar na cátedra de Pedro até morrerem? Há uma grande corrente de teólogos que acha que não, que consideram que, graças aos avanços da medicina, a resignação será cada vez mais comum porque não convém nada à Igreja de Cristo que um homem seja eleito aos 60 anos e esteja à frente da Igreja até aos 90 ou 100.
Quanto aos idosos, devem ser valorizados por serem idosos e não por uma papa idoso dar o exemplo ser incansável. Estará com isso João Paulo II a dizer que todos devem continuar à frente das paróquias e das dioceses até aos limites das forças? Ou é um exemplo para a sociedade civil, e nesse caso, os idosos deviam estar até morrer à frente das nações, das empresas, de todos os organismos. Invocar o para defender a terceira ou quarta idade é um argumento muito mau para a terceira idade. Além disso, principalmente na pastoral, há muitos campos em que a acção dos pastores reformados podem fazer muito, mesmo muito. O exemplo mais conhecido será, com certeza, o dos bispos eméritos que se dedicam àquilo que mais gostam e que mais bem lhes faz e que podem desempenhar da melhor forma: retiros, direcção espiritual, memórias, biografias de pessoas que conheceram, etc.
2 – Os do contra nunca invocaram um dado muito simples. O papado é um serviço, mas é também um poder. Como poder que é (ministério), deve ser limitado no tempo. Ora o papado, ao contrário dos outros, sabe-se quando começa, mas não se sabe quando acaba. Não devia ser assim. Devia ter um fim previsto. Nesse sentido, as democracias (com a divisão e delimitação de poderes) são um exemplo. O papado começa bem porque começa com uma eleição. Mas devia ter um fim previsto. A resignação (que, ao contrário do que dizia Feytor Pinto, não aconteceu só com Celestino V) devia ser algo mais comum.
3 – No grupo do contra estavam apenas pessoas que de algum modo se intitulavam como estando fora da Igreja (a Clara Pinto Correi considerava-se católica em autogestão). Escolha errada. Embora pudessem estar lá pessoas desse tipo, deviam estar também católicos convictos que defendessem a resignação do papa, católicos, tão praticantes como os dos prós, que dissessem porque é que não concordam com João Paulo II. É que nem este nem nenhum papa têm o monopólio da fé. Nenhum é insubstituível, repito-me. Apontam o caminho, mas não são o caminho. E também têm contextos que, históricos como somos, necessariamente nos dão uma forma de ser. Penso que é o um serviço à Igreja universal defender a delimitação do papado. Deste em concreto e de todos em geral. É uma questão de princípio. Contra a divinização do papado. Em favor de uma Igreja mais plural, onde o papa seja o primeiro servidor crente e que, como servidor, à maneira do Evangelho, saiba reconhecer que a sua missão chega ao fim e, por isso, há que retirar-se porque outros poderão levar a Igreja a bom porto com a ajuda do mesmo Espírito.

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