Por humor de Deus!
Texto publicado no Correio do Vouga, 9 de Março
1. Há dias, quando preparava um trabalho para um grupo de Igreja, dei com um desenho que me fez soltar uma gargalhada. Ao lado de um túmulo escavado na rocha estava a pedra que anteriormente tapava a entrada. O túmulo estava vazio. À frente, em primeiro plano, tinha uma tabuleta que dizia: “Vende-se. Pouco usado”.
Era, obviamente, um modo engraçado de falar da ressurreição de Jesus, e fez-me pensar no que devia comunicar na tarde de sábado ao tal grupo católico: a falta que faz um pouco de humor no trabalho pastoral.
2. Por vezes o catolicismo tem sido criticado pela falta de sentido de humor. Numa entrevista à Notícias Magazine (21 Dez. 2003), Frei Bento Domingues dizia que “a religião da Graça não tem graça nenhuma”, que o cristianismo perdeu o sentido de humor e com isso desvirtua-se si próprio.
A profundidade do riso é tão necessária como a seriedade da meditação. Aliás, a meditação também pode fazer sorrir. É uma boa forma de enfrentar as nossas incoerências, relativizar os erros (tão necessário para prosseguir o caminho), quebrar os ídolos. Faz falta uma teologia do humor (ou uma stand up theology) que dê sequência à que dizem ser a nona bem-aventurança (ou escapou aos evangelistas, ou era tão evidente que não foi preciso deixá-la escrita): “Feliz quem se ri de si próprio, porque nunca mais pára de rir”.
3. A razão porque cristianismo e humor por vezes estão de costas voltadas está na ausência do Espírito Santo. Não é à toa que se diz que uma pessoa é muito espirituosa quando faz rir. Mas quem faz rir e nos põe o coração a arder por ouvirmos certas palavras, além de espirituoso, é espiritual. O humor é sinal de criatividade e de inteligência, dois dons do Espírito. A falta de humor vem também da excessiva valorização das lágrimas para reclamar a protecção de Deus, como se Deus não conhecesse o íntimo de cada um de nós. E como se o riso não fosse já um primeiro consolo nas dificuldades. Vem, finalmente, do orgulho humano. Sim, não rimos tanto porque achamos que há algo a defender, que Deus pode ficar ofendido se pusermos humor na religião. O extremo desta tentativa humana de proteger Deus foi a Inquisição. Algumas pessoas achavam que Deus precisava de ser defendido. E como sabemos, a Inquisição tinha uma falta de humor terrível. O ser humano, sim, precisa de ser defendido. Deus, não, porque a defesa de Deus, desde os evangelhos, é a defesa dos desprotegidos.
4. Para terminar, uma anedota que ilustra bem aquela passagem do Salmo 90 e que S. Pedro retoma numa das cartas (2 Pe 3,8): “Mil anos, diante de ti, são como o dia de ontem que passou” (Sl 90,4).
“Um católico pede a Deus com muito fervor:
- Senhor, é verdade que para Ti, mil anos são uns meros segundinhos, não é?
- E também é verdade que, para Ti, uns milhões de euros são uns meros trocados, não é?
- Então, Senhor, e se Tu me desses uns trocadinhos dos teus?
Uma voz responde-lhe:
- Espera uns segundinhos!”
Texto publicado no Correio do Vouga, 9 de Março
1. Há dias, quando preparava um trabalho para um grupo de Igreja, dei com um desenho que me fez soltar uma gargalhada. Ao lado de um túmulo escavado na rocha estava a pedra que anteriormente tapava a entrada. O túmulo estava vazio. À frente, em primeiro plano, tinha uma tabuleta que dizia: “Vende-se. Pouco usado”.
Era, obviamente, um modo engraçado de falar da ressurreição de Jesus, e fez-me pensar no que devia comunicar na tarde de sábado ao tal grupo católico: a falta que faz um pouco de humor no trabalho pastoral.
2. Por vezes o catolicismo tem sido criticado pela falta de sentido de humor. Numa entrevista à Notícias Magazine (21 Dez. 2003), Frei Bento Domingues dizia que “a religião da Graça não tem graça nenhuma”, que o cristianismo perdeu o sentido de humor e com isso desvirtua-se si próprio.
A profundidade do riso é tão necessária como a seriedade da meditação. Aliás, a meditação também pode fazer sorrir. É uma boa forma de enfrentar as nossas incoerências, relativizar os erros (tão necessário para prosseguir o caminho), quebrar os ídolos. Faz falta uma teologia do humor (ou uma stand up theology) que dê sequência à que dizem ser a nona bem-aventurança (ou escapou aos evangelistas, ou era tão evidente que não foi preciso deixá-la escrita): “Feliz quem se ri de si próprio, porque nunca mais pára de rir”.
3. A razão porque cristianismo e humor por vezes estão de costas voltadas está na ausência do Espírito Santo. Não é à toa que se diz que uma pessoa é muito espirituosa quando faz rir. Mas quem faz rir e nos põe o coração a arder por ouvirmos certas palavras, além de espirituoso, é espiritual. O humor é sinal de criatividade e de inteligência, dois dons do Espírito. A falta de humor vem também da excessiva valorização das lágrimas para reclamar a protecção de Deus, como se Deus não conhecesse o íntimo de cada um de nós. E como se o riso não fosse já um primeiro consolo nas dificuldades. Vem, finalmente, do orgulho humano. Sim, não rimos tanto porque achamos que há algo a defender, que Deus pode ficar ofendido se pusermos humor na religião. O extremo desta tentativa humana de proteger Deus foi a Inquisição. Algumas pessoas achavam que Deus precisava de ser defendido. E como sabemos, a Inquisição tinha uma falta de humor terrível. O ser humano, sim, precisa de ser defendido. Deus, não, porque a defesa de Deus, desde os evangelhos, é a defesa dos desprotegidos.
4. Para terminar, uma anedota que ilustra bem aquela passagem do Salmo 90 e que S. Pedro retoma numa das cartas (2 Pe 3,8): “Mil anos, diante de ti, são como o dia de ontem que passou” (Sl 90,4).
“Um católico pede a Deus com muito fervor:
- Senhor, é verdade que para Ti, mil anos são uns meros segundinhos, não é?
- E também é verdade que, para Ti, uns milhões de euros são uns meros trocados, não é?
- Então, Senhor, e se Tu me desses uns trocadinhos dos teus?
Uma voz responde-lhe:
- Espera uns segundinhos!”
