Saturday, July 24, 2004

 
Desidério Murcho e a ilusão das respostas religiosas

Pode ser apenas impressão minha, mas parece-me que Desidério Murcho anda muito preocupado em provar a falsidade da religião. Ou talvez a rua irrelevância epistemológica. Ou a sua irracionalidade intrínseca. Digo isto porque quer em “Livros na Rede” (secção da revista Os meus Livros) quer em “Vale a Pena Traduzir” (coluna do Mil Folhas, do Público) o tema da religião (isto é, da irracionalidade, irrelevância, fraude... da religião) é omnipresente. A explicação para tal assiduidade poderia ser simples: a filosofia (o colunista é filósofo, ou antes, divulgador de filosofia) ocupa-se permanentemente da religião. Mas creio que Desidério não subscreveria tal tese. Se fosse antes “a filosofia está sempre a demonstrar a irracionalidade e irrelevância da religião”, com certeza.

Apesar de ser evidente que Desidério Murcho não tem qualquer simpatia pelo fenómeno religioso (eu disse “fenómeno”), alimenta-o. Precisa dele. É frequente haver pessoas que dedicam a vida, ou pelo menos o esforço, ou pelo menos uma parte substancial dele, a algo que se acha inútil/irrelevante. Desidério tem bons exemplos em Richard Dawkins e A.C. Grayling, como bem sabe. O erro dessas pessoas é que, tentando continuamente provar a falsidade daquilo que pela atitude dos críticos não mereceria uns segundos da atenção dos humanos, então paradoxalmente a afirmar a importância do fenómeno. E quando passada uma semana apresentam novos argumentos (o que Desidério faz é apresentar novas ideias de outros, em forma de artigos, sites, livros) contra a religião, então a afirmar que afinal a religião é algo muito mais profundo, pois há um batalhão de pessoas a pensar no fenómeno. E o fenómeno tem tanta consistência que são necessários novos argumentos para o desmontar. Na verdade, é assim há séculos.

No último Mil Folhas (24 de Julho), sob o título “Por que há algo e não o nada?”, Desidério Murcho fala do livro de Bede Rundle “Why Is There Something Rather Than Nothing?” (Oxford University Press). Claro que a irrelevância (ou a ilusão) filosófica da religião tinha de aparecer. O livro ocupa-se, como é óbvio, das respostas à pergunta do título. Vejamos o que diz Desidério, que cita o autor do livro: «As duas reacção mais intuitivas ao problema consistem em procurar fazer-nos parar de pensar – não porque se tenham resolvido ou dissolvido o problema, mas porque se insiste numa estratégia enganadora. A primeira dessas reacções é a sobrenatural ou religiosa [já agora, a outra consiste em afirmar que “o universo é um facto bruto, que não requer explicação”]. Rundle argumenta que as respostas religiosas são ilusórias, porque deixam a existência de Deus por explicar, declarando-a necessária: “Uma crença inabalável de que tem de haver uma explicação não garante que a hipótese sobrenatural proposta conta como explicação, e que ao chamar a algo um milagre estamos a fazer mais do que colar uma etiqueta que diz ‘Por explicar’”» [não sei se a tradução de Desidério Murcho estará correcta, mas é assim que aparece nas páginas do Público. Parece faltar um “não” antes de “estamos”].
 De notar que quando Desidério apresenta uma ideia contra a religião, nunca ouve o outro lado, como mandam os bons modos da argumentação. Pelo menos, não me lembro de alguma vez ter apresentado algum autor a contra-argumentar, quando se trata de questões religiosas, mas... adiante. O que acho curioso na argumentação de Rundle/Murcho é acharem que a resposta religiosa é ilusória porque deixa a existência de Deus por explicar. Era o que faltava. Desde quando a religião pretende explicar Deus? Não quer, nem pode. Desde quando a criatura pode explicar o Criador? No dia em que a religião fizer isso, deixa de ser religião. Estão a pedir à religião que se “des-religione-se”. Se os autores dissessem que as respostas religiosas são respostas não filosóficas, ainda se entendia. Agora pretender que a religião explique Deus e que isso tenha relevância filosófica é um vício de forma. É capaz de haver um nome qualquer para essa falácia... Por outro lado, no dia em que a religião, a teologia ou a teologia filosófica ou que quer que seja disserem que Deus não é o Ser Necessário e que há outro Ser Necessário, esse é que é Deus – e voltaremos ao princípio. Sei que é contra este tipo de raciocínio que os filósofos como Rundle/Desidério argumentam, mas em relação a isso, só há que dizer: “Não há volta a dar. É assim mesmo” (talvez estas expressões sejam versões mais populares do argumento Contingente/Necessário). Ilusão é pretender o contrário.

Friday, July 23, 2004

Carta aos próximos Papas (com o conhecimento dos cristãos)

A PARTIR DO  INTERIOR - Há uma comparação que diz que tal como um vitral só é bem apreciado por quem está dentro de uma igreja (edifício), também as críticas só podem ser bem feitas quando partem de dentro da Igreja (comunidade).
É esta “interioridade” que faz do livro “Carta aos sucessores de João Paulo II” (Editorial Notícias) uma crítica diferente das outras. Onde outras são sensacionalistas e centradas nos mesmos escândalos e nos mesmos temas (ordenação das mulheres, celibato, divórcio e poder do papa...), esta é muito mais recatada, centrada em princípios e não em factos, mas muito mais profunda porque faz pensar em muitos factos, ainda que não sejam nomeados directamente. As outras criticam porque não amam e com base no preconceito. Esta critica porque conhece e ama. As outras incomodam sem motivar a mudança. Esta, sendo muito mais radical (vai à raiz, ou seja, até ao tempo em que Pedro era um pescador na Galileia ou em que “Jesus levantou-se, pediu uma toalha, que amarrou à cintura, encheu uma bacia de água e aproximou-se de cada um deles para lhes lavar os pés”), cria no leitor cristão o desejo de “tomar em mãos o futuro da sua Igreja”.

PARA OS DOIS PRÓXIMO PAPAS -  Ler a “Carta aos Sucessores de João Paulo II” não é violação de correspondência. O livro dirige-se “aos dois futuros papas, iniciadores de grandes reformas”, depois de “Karol Wojtyla, que foi escolhido para realizar uma missão específica que cumpre de forma admirável”, mas também aos próprios cristãos – sem os quais não será possível realizar essas reformas. O autor refere ainda que este é também um livro para não-cristãos, mas dificilmente um não-cristão pode sentir entusiasmo (bonita palavra que quer dizer “levar Deus dentro se si”) nestas 19 meditações eclesiais, porque não está do lado de dentro da Igreja.

OUSAR CRITICAR - A crítica às instituições religiosas é uma característica dos grandes profetas, a começar pelos do Antigo Testamento (“quero misericórdia e não sacrifícios” – a frase mais citada no Novo Testamento) e passando por Jesus Cristo, que tem uma morte política depois de uma condenação religiosa. O profeta de Nazaré sentiu mais do que ninguém a necessidade de mudança no judaísmo, começando pela reforma do coração de cada pessoa.

O AUTOR -  Olivier Le Gendre, o autor, não é teólogo de profissão, nem padre. Diz a capa do livro que “nasceu em 1950, é casado e pais de cinco filhos. Estudou letras e gestão (...). Editorialista, conferencista, autor de uma carta semanal de aconselhamento estratégico para dirigentes de empresa e responsáveis de administração, é igualmente animador de sessões e retiros”. Escreveu um livro que, dos publicados ultimamente, é sem dúvida o melhor sobre a Igreja. Se alguém, após iniciar a leitura, se sentir defraudado, leia pelo menos o último capítulo (“O Evangelho da Igreja” – onde se nota a vocação de animador de retiros) e perceberá por onde passa o futuro da Igreja.

Tuesday, July 20, 2004

Parlamento das religiões, um sinal para o mundo

FOLCLORE RELIGIOSO - Para alguns, talvez não tenha passado de folclore religioso, pois as “túnicas vermelhas e laranjas dos monges budistas, as vestes cinzentas, castanhas, brancas ou pretas de padres e feiras católicos, os fatos clericais escuros de pastores protestantes e anglicanos, os turbantes dos sikhs, os saris indianos, algumas túnicas islâmicas” contribuíam para o que mais parecia uma feira de religiões. Para outros, não se passou nada, em parte porque poucos meios de comunicação referiram a reunião. E o que não aparece nos jornais ou não televisão é como se não existisse. No entanto, em Barcelona, de 7 a 13 de Julho, o Parlamento das Religiões do Mundo foi um acontecimento ímpar, um sinal da fraternidade e entendimento possíveis apesar de, ou antes, graças à imensa diversidade religiosa do mundo. 
  
BREVE HISTÓRIA DO P.R. - A primeira vez que o Parlamento das Religiões se reuniu foi em 1893, em Chicago (EUA). Em 1993, o encontro teve uma segunda sessão na mesma cidade e em 1999 na Cidade do Cabo (África do Sul). Agora, em Barcelona, reuniu cerca de sete mil participantes sob o tema “Sendeiros de paz: a arte de saber escutar, o poder do compromisso”. Do encontro, além da discussão de temas de grande importância política como a paz (ou antes, a guerra), o desenvolvimento, os direitos das mulheres, o acesso à água potável (“porque há laços fortes entre as religiões e a sociedade”), faziam parte momentos de oração, refeições partilhadas, concertos de música, num total de meio milhar de actividades. 
  
OS RETICENTES -  O diálogo inter-religioso (diferente do ecumenismo, que é o diálogo entres confissões cristãs) ainda encontra resistências entre católicos. Alguns ficam espantados por agora se falar em diálogo e respeito, quando há poucos anos “nós é que tínhamos a verdade” e “devíamos levar os outros à conversão”. Parece até que a atitude do diálogo e compreensão retira legitimidade aos missionários, que dão a vida para anunciar Jesus Cristo entre as outras religiões. No entanto, na actualidade, são precisamente os missionários os grandes promotores do diálogo inter-religioso, porque a proposta de Jesus Cristo tem de ser sempre dialogante e inculturada. Por outro lado, desde o Concílio Vaticano II (1962-65), a Igreja aconselha os cristãos a “reconhecer, conservar e promover os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles [os seguidores de outras religiões] se encontrem”. Por fim, quando o próprio Papa se reúne com líderes de outras religiões (encontros de Assis) para rezar, é porque algo de superior a todos une. 
  
EXEMPLO - Paimon Panikkar, padre católico e filho de um hindu e de uma catalã, co-presidente do Parlamento das Religiões, refere algumas vantagens do diálogo inter-religioso. À pergunta “é possível fazer uma síntese entre credos diferentes?”, responde: “Não se trata de uma síntese, mas de fecundação mútua. Nem é tão pouco um ecletismo, mas um enriquecimento, que será consequência de um maior conhecimento, do amor e do encontro com a diferença. Os católicos têm necessidade do budismo para recordar a dimensão da contemplação e do silêncio. O encontro serve para enriquecer e contactar com o que cada um esqueceu da sua tradição. (...) O que necessitamos é, mutuamente, uns dos outros. Não posso só enriquecer-me com os outros, mas partilhar também o que sou”. Desta partilha individual e ao nível das cúpulas das religiões, a caminho de uma ética universal, só podem vir boas notícias para o mundo.
 
(Nota final: Os dados deste texto referentes ao Parlamento das Religiões do Mundo foram retirados do jornal Público, que enviou a Barcelona o jornalista António Marujo e, entre os dias 8 e 18 de Julho, deu um grande destaque a esta reunião inter-religiosa.)