Desidério Murcho e a ilusão das respostas religiosas
Pode ser apenas impressão minha, mas parece-me que Desidério Murcho anda muito preocupado em provar a falsidade da religião. Ou talvez a rua irrelevância epistemológica. Ou a sua irracionalidade intrínseca. Digo isto porque quer em “Livros na Rede” (secção da revista Os meus Livros) quer em “Vale a Pena Traduzir” (coluna do Mil Folhas, do Público) o tema da religião (isto é, da irracionalidade, irrelevância, fraude... da religião) é omnipresente. A explicação para tal assiduidade poderia ser simples: a filosofia (o colunista é filósofo, ou antes, divulgador de filosofia) ocupa-se permanentemente da religião. Mas creio que Desidério não subscreveria tal tese. Se fosse antes “a filosofia está sempre a demonstrar a irracionalidade e irrelevância da religião”, com certeza.
Apesar de ser evidente que Desidério Murcho não tem qualquer simpatia pelo fenómeno religioso (eu disse “fenómeno”), alimenta-o. Precisa dele. É frequente haver pessoas que dedicam a vida, ou pelo menos o esforço, ou pelo menos uma parte substancial dele, a algo que se acha inútil/irrelevante. Desidério tem bons exemplos em Richard Dawkins e A.C. Grayling, como bem sabe. O erro dessas pessoas é que, tentando continuamente provar a falsidade daquilo que pela atitude dos críticos não mereceria uns segundos da atenção dos humanos, então paradoxalmente a afirmar a importância do fenómeno. E quando passada uma semana apresentam novos argumentos (o que Desidério faz é apresentar novas ideias de outros, em forma de artigos, sites, livros) contra a religião, então a afirmar que afinal a religião é algo muito mais profundo, pois há um batalhão de pessoas a pensar no fenómeno. E o fenómeno tem tanta consistência que são necessários novos argumentos para o desmontar. Na verdade, é assim há séculos.
No último Mil Folhas (24 de Julho), sob o título “Por que há algo e não o nada?”, Desidério Murcho fala do livro de Bede Rundle “Why Is There Something Rather Than Nothing?” (Oxford University Press). Claro que a irrelevância (ou a ilusão) filosófica da religião tinha de aparecer. O livro ocupa-se, como é óbvio, das respostas à pergunta do título. Vejamos o que diz Desidério, que cita o autor do livro: «As duas reacção mais intuitivas ao problema consistem em procurar fazer-nos parar de pensar – não porque se tenham resolvido ou dissolvido o problema, mas porque se insiste numa estratégia enganadora. A primeira dessas reacções é a sobrenatural ou religiosa [já agora, a outra consiste em afirmar que “o universo é um facto bruto, que não requer explicação”]. Rundle argumenta que as respostas religiosas são ilusórias, porque deixam a existência de Deus por explicar, declarando-a necessária: “Uma crença inabalável de que tem de haver uma explicação não garante que a hipótese sobrenatural proposta conta como explicação, e que ao chamar a algo um milagre estamos a fazer mais do que colar uma etiqueta que diz ‘Por explicar’”» [não sei se a tradução de Desidério Murcho estará correcta, mas é assim que aparece nas páginas do Público. Parece faltar um “não” antes de “estamos”].
De notar que quando Desidério apresenta uma ideia contra a religião, nunca ouve o outro lado, como mandam os bons modos da argumentação. Pelo menos, não me lembro de alguma vez ter apresentado algum autor a contra-argumentar, quando se trata de questões religiosas, mas... adiante. O que acho curioso na argumentação de Rundle/Murcho é acharem que a resposta religiosa é ilusória porque deixa a existência de Deus por explicar. Era o que faltava. Desde quando a religião pretende explicar Deus? Não quer, nem pode. Desde quando a criatura pode explicar o Criador? No dia em que a religião fizer isso, deixa de ser religião. Estão a pedir à religião que se “des-religione-se”. Se os autores dissessem que as respostas religiosas são respostas não filosóficas, ainda se entendia. Agora pretender que a religião explique Deus e que isso tenha relevância filosófica é um vício de forma. É capaz de haver um nome qualquer para essa falácia... Por outro lado, no dia em que a religião, a teologia ou a teologia filosófica ou que quer que seja disserem que Deus não é o Ser Necessário e que há outro Ser Necessário, esse é que é Deus – e voltaremos ao princípio. Sei que é contra este tipo de raciocínio que os filósofos como Rundle/Desidério argumentam, mas em relação a isso, só há que dizer: “Não há volta a dar. É assim mesmo” (talvez estas expressões sejam versões mais populares do argumento Contingente/Necessário). Ilusão é pretender o contrário.

2 Comments:
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