FOLCLORE RELIGIOSO - Para alguns, talvez não tenha passado de folclore religioso, pois as “túnicas vermelhas e laranjas dos monges budistas, as vestes cinzentas, castanhas, brancas ou pretas de padres e feiras católicos, os fatos clericais escuros de pastores protestantes e anglicanos, os turbantes dos sikhs, os saris indianos, algumas túnicas islâmicas” contribuíam para o que mais parecia uma feira de religiões. Para outros, não se passou nada, em parte porque poucos meios de comunicação referiram a reunião. E o que não aparece nos jornais ou não televisão é como se não existisse. No entanto, em Barcelona, de 7 a 13 de Julho, o Parlamento das Religiões do Mundo foi um acontecimento ímpar, um sinal da fraternidade e entendimento possíveis apesar de, ou antes, graças à imensa diversidade religiosa do mundo.
BREVE HISTÓRIA DO P.R. - A primeira vez que o Parlamento das Religiões se reuniu foi em 1893, em Chicago (EUA). Em 1993, o encontro teve uma segunda sessão na mesma cidade e em 1999 na Cidade do Cabo (África do Sul). Agora, em Barcelona, reuniu cerca de sete mil participantes sob o tema “Sendeiros de paz: a arte de saber escutar, o poder do compromisso”. Do encontro, além da discussão de temas de grande importância política como a paz (ou antes, a guerra), o desenvolvimento, os direitos das mulheres, o acesso à água potável (“porque há laços fortes entre as religiões e a sociedade”), faziam parte momentos de oração, refeições partilhadas, concertos de música, num total de meio milhar de actividades.
OS RETICENTES - O diálogo inter-religioso (diferente do ecumenismo, que é o diálogo entres confissões cristãs) ainda encontra resistências entre católicos. Alguns ficam espantados por agora se falar em diálogo e respeito, quando há poucos anos “nós é que tínhamos a verdade” e “devíamos levar os outros à conversão”. Parece até que a atitude do diálogo e compreensão retira legitimidade aos missionários, que dão a vida para anunciar Jesus Cristo entre as outras religiões. No entanto, na actualidade, são precisamente os missionários os grandes promotores do diálogo inter-religioso, porque a proposta de Jesus Cristo tem de ser sempre dialogante e inculturada. Por outro lado, desde o Concílio Vaticano II (1962-65), a Igreja aconselha os cristãos a “reconhecer, conservar e promover os bens espirituais e morais e os valores sócio-culturais que entre eles [os seguidores de outras religiões] se encontrem”. Por fim, quando o próprio Papa se reúne com líderes de outras religiões (encontros de Assis) para rezar, é porque algo de superior a todos une.
EXEMPLO - Paimon Panikkar, padre católico e filho de um hindu e de uma catalã, co-presidente do Parlamento das Religiões, refere algumas vantagens do diálogo inter-religioso. À pergunta “é possível fazer uma síntese entre credos diferentes?”, responde: “Não se trata de uma síntese, mas de fecundação mútua. Nem é tão pouco um ecletismo, mas um enriquecimento, que será consequência de um maior conhecimento, do amor e do encontro com a diferença. Os católicos têm necessidade do budismo para recordar a dimensão da contemplação e do silêncio. O encontro serve para enriquecer e contactar com o que cada um esqueceu da sua tradição. (...) O que necessitamos é, mutuamente, uns dos outros. Não posso só enriquecer-me com os outros, mas partilhar também o que sou”. Desta partilha individual e ao nível das cúpulas das religiões, a caminho de uma ética universal, só podem vir boas notícias para o mundo.
(Nota final: Os dados deste texto referentes ao Parlamento das Religiões do Mundo foram retirados do jornal Público, que enviou a Barcelona o jornalista António Marujo e, entre os dias 8 e 18 de Julho, deu um grande destaque a esta reunião inter-religiosa.)
Tuesday, July 20, 2004
Parlamento das religiões, um sinal para o mundo

1 Comments:
Ora aqui está um artigo com muita pinta.
Força aí António.
EM BREVE COMENTAREI O TEXTO.
um abraço
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