Friday, July 14, 2006

Cristianismo causa de tudo... o que é mal

León Rozitchner esquece (ou parece esquecer) que o capitalismo, apesar de todos os excessos, conseguiu uma coisa que mais nenhum sistema económico tinha conseguido: acabar com a fome nos países que o adoptam. O problema, no mundo, não é tanto a "exploração capitalista" (embora também seja), mas a ausência de qualquer exploração. Um africano que tem apenas o equivalente a um dólar por dia não se importava de ser explorado numa fábrica se ganhasse quatro ou cinco e pudesse comer e vestir-se mais dignamente. Não se importava de ser vítima do consumo (capitalista), se pelo menos pudesse satisfazer as suas necessidades mais elementares, a começar pela fome. Não se importaria que a ideologia capitalista lhe criasse mais necessidade, se pelo menos as mínimas pudessem ser satisfeitas.

Esquece que as maiores catástrofes ambientais aconteceram na ex-URSS (a seca do maior lago de água doce do mundo, o mar de Aral, por exemplo) e estão a acontecer na China (capitalista, mas não democrática e sem liberdade religiosa). Que as maiores matanças humanas foram as do nazismo (pagão), estalinismo (ateu) e maoísmo (ateu). É certo que Hitler foi baptizado católico e José Estaline foi seminarista ortodoxo, mas ambos recusaram essas fés e perseguiram quem as defendeu. Se o cristianismo é invocado para o mal nazi (como foi num jornal português, há dias), então não há limites e tudo pode ser invocado para tudo, tudo pode ser causa de tudo. Por consequência ou por oposição, por presença ou por omissão, tudo pode ser causa de tudo.

Seria interessante saber o que pensa León Rozitchner de uma série de afirmações ou valores do cristianismo, a começar pela defesa da vida e pela condenação do aborto. "Uma ideologia que não valoriza o corpo não pode respeitar a vida humana", disse ele. Quem mais do que o cristianismo tem respeito pela vida humana? Quem mais do que os cristãos promovem a vida humana (desde o início, até ao fim) nos países ricos e nos pobres (os missionários, p. ex.)? Quem mais do que os cristãos movem esforços para que a dívida dos países pobres seja perdoada (embora também os haja que não concordem com perdão, casa não haja compromisso dos perdoados)?

Paul Valadier escreveu em tempos sobre a desconsideração cultural do cristianismo. E disse ainda que, tal como em tempos os judeus eram tidos como a causa de todos os males, agora esse papel cabe aos católicos. Vou reler as ideias de Paul Valadier.