O Papa falou, o mundo reagiu
Nunca um texto papal foi tão comentado como a aula de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no dia 12 de Setembro. O texto encontra-se em português em www.agencia.ecclesia.pt. Recolho algumas opiniões da imprensa portuguesa.
Bento XVI pode ter deitado uma acha para a fogueira da intolerância, mas usufruiu de uma liberdade, que nem sempre o catolicismo respeitou. Critique-se a falta de sensibilidade. Elogie-se o inalienável direito ao exercício da razão.
António José Teixeira
Diário de Notícias, 16-09-06
O Papa já lamentou o equívoco, mas não pediu desculpa. Não podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignorância, nem pelo teor geral da conferência de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a fé não é separável da razão e que agir irracionalmente “contraria” a natureza de Deus. Não vale a pena entrar nas complexidades do assunto. Basta lembrar que desde o princípio (desde Orígenes, por exemplo) se construiu sobre a fé cristã um dos mais sublimes monumentos à razão humana e que o Ocidente, apesar da “Europa”, não existiria sem ela. A fé muçulmana não produziu nada de remotamente comparável e, durante quinze séculos, sustentou uma civilização frustre e parada. A conferência de Ratisbona reafirmou a essência do cristianismo. Se o Islão se ofendeu, pior para ele.
Vasco Pulido Valente
Público, 17-09-06
Os muçulmanos que reagem de formas (...) tristes e ridículas reagem de forma invariavelmente ignorante, no seu obscurantismo ofuscante e aniquilador da razão, criando, em última instância, obstáculos à sua própria fé. (...) O que não esperava, todavia, era que o líder de uma religião seguida por milhões de crentes recorresse a um exemplo da história, ignorando o pluralismo e diversidade da realidade como são as várias sociedades muçulmanas.
Faranaz Keshavjee
Público, 18-09-06
Bento XVI não é João Paulo II. Mas não poderia ignorar o destino mais do que provável das suas palavras, fosse qual fosse o contexto em que as pronunciou. É, pois, legítimo perguntar se este Papa quer redefinir os termos do diálogo com o Islão estabelecidos pelo seu antecessor. E isso é tanto mais importante quanto a relação entre cristianismo e islamismo pode ser para o seu pontificado o que foi o confronto ideológico entre democracia e comunismo para o do seu antecessor.
Teresa de Sousa
Público, 19-09-06
Joseph Ratzinger não é nem uma estrela de cinema, nem um director de relações públicas. O seu tempo é próprio, e isso pode trazer problemas aos que esperam espectáculo. Mas acusá-lo de começar uma cruzada é ler ao contrário o que foi dito.
Nuno Rogeiro
Correio da Manhã, 19-09-06
A conferência do Papa é um dos textos mais tolerantes que algum papa fez ate hoje, e talvez tenha sido por isso mesmo que foi atacada. Eu penso que há de facto razões para os fundamentalistas atacarem com violência o documento, exactamente pela sua substância e não pela citação fora do contexto. (...) Porque é que o Papa diz isto tudo? Está na lá texto em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fusão pela na tradição grega do logos com o cristianismo, o Papa está a enunciar a tradição cultural da Europa, da história tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Está a falar de religião e de política, de cultura e de pensamento, da União Europeia e da Turquia, do cristianismo e do Islão. Insto sim é que devia ser discutido, isto é que o papa esperava que fosse discutido. E isto é que interpela o Islão, se ele se deixar interpelar.
José Pacheco Pereira
Público, 21-09-06
A vida pública hoje é mais dominada pela emoção do que pela razão. A empatia mediática de João Paulo II contrasta profundamente com o distanciamento frio e cerebral do seu sucessor. Onde o papa polaco fazia de cada homilia um acto de comunhão afectiva com os crentes, Bento XVI profere uma lição assente em princípios e valores abstractamente explanados, deixando aos crentes a responsabilidade de retirarem as conclusões quanto à maneira de viverem a sua fé no quotidiano. (...) Mas mais do que o relato das palavras do Papa feito pelos meios de comunicação acidentais, o que fez a diferença desta “crise” foi a realidade comunicacional do próprio mundo muçulmano, designadamente as cadeias de televisão árabes e o seu impacto junto das respectivas populações. A natureza transnacional destes meios de comunicação produziu nos anos mais recentes um fenómeno novo que importa não menosprezar: é pela via comunicacional que se está a promover a unificação do mundo muçulmano.
António Vitorino
Diário de Notícias, 22-09-06
Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. (...) Não, o Papa não foi mal interpretado. Infelizmente para todos nós, ele foi demasiadamente bem interpretado pelos “ullemas” islâmicos. Era isso mesmo que eles queriam ouvir para legitimarem a sua “jihad”, e agarrarem com ambas as mãos a inesperada oferta papal: em lugar de um obscuro cartunista dinamarquês, agora têm o próprio chefe da cristandade a desafiá-los.
Miguel Sousa Tavares
Expresso, 23-09-06
O papa soube deitar água fria no fanatismo islâmico e no racismo que domina a nova intelectualidade ocidental. Digo-o com gosto.
Daniel Oliveira
Expresso, 23-09-06
Atendendo à crispação actual entre muçulmanos e ocidentais, mais por motivos políticos do que religiosos, a citação que o Papa fez do imperador bizantino sobre Maomé não foi um acidente académico perigoso para a ideologia muçulmana dos nossos dias? (...) Em meu entender, foi infeliz no momento crucial que vivemos. [Os muçulmanos] estão a responder de acordo com a crítica do imperador bizantino.
Joaquim Carreira das Neves
Expresso, 23-09-06
Infelizmente, de modo geral, o Islão ainda não assumiu conquistas fundamentais da modernidade, sem as quais não haverá paz entre as religiões e no mundo: a distinção entre religião e política e a leitura histórico-crítica do Alcorão.
Anselmo Borges
Diário de Notícias, 24-09-06
Ratzinger dez um discurso sobre fé e razão que, obviamente, não foi compreendido no Ocidente porque há cada vez menos fé, no Islão porque há cada vez menos razão.
Paulo Portas
Sol, 23-09-06
Afinal, que pretendia o Prof. Ratzinger com uma transcrição claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e más relações entre Fé, Razão e Violência, não precisava de sair do campo judaico-cristão. A Igreja acolheu a Bíblia hebraica que lê, medita e proclama na sua liturgia, e na qual não existem só maravilhas. Há páginas abomináveis – que alguns julgam essenciais – de "guerra santa". Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vigília Pascal, em que é celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno é o seu amor! (...)
Terá o Prof. Ratzinger esquecido que as insinuações de uma citação ofensiva não iriam ser exploradas como se retratassem a atitude de Bento XVI e a orientação que quer dar ao seu pontificado?
Não creio que o Papa pretenda liquidar o diálogo inter-religioso. A sua preocupação de sempre tem sido mostrar a originalidade do Cristianismo e, dentro desta, a do Catolicismo. Louvado seja! Mas, para isso, não é lícito desfigurar os outros percursos religiosos. Na Universidade de Ratisbona, o Prof. Ratzinger talvez não tenha sido suficientemente autocrítico para vencer essa tentação. Agora, tem de ser a vasta diplomacia vaticana a colar os estilhaços de uma bomba verbal. Como Deus não é perverso, acabará – dizem os portugueses – por escrever direito por linhas tortas.
Bento Domingues
Público, 24-09-06
O Papa está a ganhar o desafio. É a própria reacção islâmica que fortalece a sua argumentação. O erro dos ulemas muçulmanos ou a incendiária campanha da Al Jazira assentam num erro de avaliação. Não estamos perante uma réplica dos cartoons dinamarqueses, insulto grosseiro a uma religião. Bento XVI interpelou intelectualmente o Islão. Em lugar de uma resposta teológica ou histórica dos ulemas, houve uma explosão de violência (...).
Jorge Almeida Fernandes
Público, 24-09-06
É muito animador verificar que muitas vozes de não crentes exprimiram nesta ocasião a sua convergência filosófica com as teses defendidas pelo Papa, que é atacado por sectores integristas do Islão. Creio que é preciso fazer suceder a este episódio a defesa e a promoção de um mais intenso e respeitoso diálogo universal entre a razão e a fé, entre a laicidade e as religiões. Se lançado em reciprocidade com o Islão, esse diálogo poderia, e em sinergia com o diálogo inter-religioso, que já se iniciou, abrir uma nova época na vida interior do próprio Islão e do “ocidente”, e nas suas relações recíprocas. O que seria verdadeiramente histórico.
Mário Pinto
Público, 25-09-06
Nunca um texto papal foi tão comentado como a aula de Bento XVI na Universidade de Ratisbona, no dia 12 de Setembro. O texto encontra-se em português em www.agencia.ecclesia.pt. Recolho algumas opiniões da imprensa portuguesa.
Bento XVI pode ter deitado uma acha para a fogueira da intolerância, mas usufruiu de uma liberdade, que nem sempre o catolicismo respeitou. Critique-se a falta de sensibilidade. Elogie-se o inalienável direito ao exercício da razão.
António José Teixeira
Diário de Notícias, 16-09-06
O Papa já lamentou o equívoco, mas não pediu desculpa. Não podia pedir. Nem pelo incidente, fabricado pelo fanatismo e a ignorância, nem pelo teor geral da conferência de Ratisbona. Ratzinger insistiu que a fé não é separável da razão e que agir irracionalmente “contraria” a natureza de Deus. Não vale a pena entrar nas complexidades do assunto. Basta lembrar que desde o princípio (desde Orígenes, por exemplo) se construiu sobre a fé cristã um dos mais sublimes monumentos à razão humana e que o Ocidente, apesar da “Europa”, não existiria sem ela. A fé muçulmana não produziu nada de remotamente comparável e, durante quinze séculos, sustentou uma civilização frustre e parada. A conferência de Ratisbona reafirmou a essência do cristianismo. Se o Islão se ofendeu, pior para ele.
Vasco Pulido Valente
Público, 17-09-06
Os muçulmanos que reagem de formas (...) tristes e ridículas reagem de forma invariavelmente ignorante, no seu obscurantismo ofuscante e aniquilador da razão, criando, em última instância, obstáculos à sua própria fé. (...) O que não esperava, todavia, era que o líder de uma religião seguida por milhões de crentes recorresse a um exemplo da história, ignorando o pluralismo e diversidade da realidade como são as várias sociedades muçulmanas.
Faranaz Keshavjee
Público, 18-09-06
Bento XVI não é João Paulo II. Mas não poderia ignorar o destino mais do que provável das suas palavras, fosse qual fosse o contexto em que as pronunciou. É, pois, legítimo perguntar se este Papa quer redefinir os termos do diálogo com o Islão estabelecidos pelo seu antecessor. E isso é tanto mais importante quanto a relação entre cristianismo e islamismo pode ser para o seu pontificado o que foi o confronto ideológico entre democracia e comunismo para o do seu antecessor.
Teresa de Sousa
Público, 19-09-06
Joseph Ratzinger não é nem uma estrela de cinema, nem um director de relações públicas. O seu tempo é próprio, e isso pode trazer problemas aos que esperam espectáculo. Mas acusá-lo de começar uma cruzada é ler ao contrário o que foi dito.
Nuno Rogeiro
Correio da Manhã, 19-09-06
A conferência do Papa é um dos textos mais tolerantes que algum papa fez ate hoje, e talvez tenha sido por isso mesmo que foi atacada. Eu penso que há de facto razões para os fundamentalistas atacarem com violência o documento, exactamente pela sua substância e não pela citação fora do contexto. (...) Porque é que o Papa diz isto tudo? Está na lá texto em todas as entrelinhas e nalgumas linhas: ao valorizar a fusão pela na tradição grega do logos com o cristianismo, o Papa está a enunciar a tradição cultural da Europa, da história tumultuosa do seu pensamento e dos fundamentos da sua identidade. Está a falar de religião e de política, de cultura e de pensamento, da União Europeia e da Turquia, do cristianismo e do Islão. Insto sim é que devia ser discutido, isto é que o papa esperava que fosse discutido. E isto é que interpela o Islão, se ele se deixar interpelar.
José Pacheco Pereira
Público, 21-09-06
A vida pública hoje é mais dominada pela emoção do que pela razão. A empatia mediática de João Paulo II contrasta profundamente com o distanciamento frio e cerebral do seu sucessor. Onde o papa polaco fazia de cada homilia um acto de comunhão afectiva com os crentes, Bento XVI profere uma lição assente em princípios e valores abstractamente explanados, deixando aos crentes a responsabilidade de retirarem as conclusões quanto à maneira de viverem a sua fé no quotidiano. (...) Mas mais do que o relato das palavras do Papa feito pelos meios de comunicação acidentais, o que fez a diferença desta “crise” foi a realidade comunicacional do próprio mundo muçulmano, designadamente as cadeias de televisão árabes e o seu impacto junto das respectivas populações. A natureza transnacional destes meios de comunicação produziu nos anos mais recentes um fenómeno novo que importa não menosprezar: é pela via comunicacional que se está a promover a unificação do mundo muçulmano.
António Vitorino
Diário de Notícias, 22-09-06
Inadvertidamente ou não, o Papa não disse nada sobre o Islão que nenhum ocidental não pense. (...) Não, o Papa não foi mal interpretado. Infelizmente para todos nós, ele foi demasiadamente bem interpretado pelos “ullemas” islâmicos. Era isso mesmo que eles queriam ouvir para legitimarem a sua “jihad”, e agarrarem com ambas as mãos a inesperada oferta papal: em lugar de um obscuro cartunista dinamarquês, agora têm o próprio chefe da cristandade a desafiá-los.
Miguel Sousa Tavares
Expresso, 23-09-06
O papa soube deitar água fria no fanatismo islâmico e no racismo que domina a nova intelectualidade ocidental. Digo-o com gosto.
Daniel Oliveira
Expresso, 23-09-06
Atendendo à crispação actual entre muçulmanos e ocidentais, mais por motivos políticos do que religiosos, a citação que o Papa fez do imperador bizantino sobre Maomé não foi um acidente académico perigoso para a ideologia muçulmana dos nossos dias? (...) Em meu entender, foi infeliz no momento crucial que vivemos. [Os muçulmanos] estão a responder de acordo com a crítica do imperador bizantino.
Joaquim Carreira das Neves
Expresso, 23-09-06
Infelizmente, de modo geral, o Islão ainda não assumiu conquistas fundamentais da modernidade, sem as quais não haverá paz entre as religiões e no mundo: a distinção entre religião e política e a leitura histórico-crítica do Alcorão.
Anselmo Borges
Diário de Notícias, 24-09-06
Ratzinger dez um discurso sobre fé e razão que, obviamente, não foi compreendido no Ocidente porque há cada vez menos fé, no Islão porque há cada vez menos razão.
Paulo Portas
Sol, 23-09-06
Afinal, que pretendia o Prof. Ratzinger com uma transcrição claramente ofensiva? Se pretendia abordar as boas e más relações entre Fé, Razão e Violência, não precisava de sair do campo judaico-cristão. A Igreja acolheu a Bíblia hebraica que lê, medita e proclama na sua liturgia, e na qual não existem só maravilhas. Há páginas abomináveis – que alguns julgam essenciais – de "guerra santa". Basta pegar no Salmo 135, cantado na Vigília Pascal, em que é celebrada a bondade de Deus que feriu e matou reis poderosos, porque eterno é o seu amor! (...)
Terá o Prof. Ratzinger esquecido que as insinuações de uma citação ofensiva não iriam ser exploradas como se retratassem a atitude de Bento XVI e a orientação que quer dar ao seu pontificado?
Não creio que o Papa pretenda liquidar o diálogo inter-religioso. A sua preocupação de sempre tem sido mostrar a originalidade do Cristianismo e, dentro desta, a do Catolicismo. Louvado seja! Mas, para isso, não é lícito desfigurar os outros percursos religiosos. Na Universidade de Ratisbona, o Prof. Ratzinger talvez não tenha sido suficientemente autocrítico para vencer essa tentação. Agora, tem de ser a vasta diplomacia vaticana a colar os estilhaços de uma bomba verbal. Como Deus não é perverso, acabará – dizem os portugueses – por escrever direito por linhas tortas.
Bento Domingues
Público, 24-09-06
O Papa está a ganhar o desafio. É a própria reacção islâmica que fortalece a sua argumentação. O erro dos ulemas muçulmanos ou a incendiária campanha da Al Jazira assentam num erro de avaliação. Não estamos perante uma réplica dos cartoons dinamarqueses, insulto grosseiro a uma religião. Bento XVI interpelou intelectualmente o Islão. Em lugar de uma resposta teológica ou histórica dos ulemas, houve uma explosão de violência (...).
Jorge Almeida Fernandes
Público, 24-09-06
É muito animador verificar que muitas vozes de não crentes exprimiram nesta ocasião a sua convergência filosófica com as teses defendidas pelo Papa, que é atacado por sectores integristas do Islão. Creio que é preciso fazer suceder a este episódio a defesa e a promoção de um mais intenso e respeitoso diálogo universal entre a razão e a fé, entre a laicidade e as religiões. Se lançado em reciprocidade com o Islão, esse diálogo poderia, e em sinergia com o diálogo inter-religioso, que já se iniciou, abrir uma nova época na vida interior do próprio Islão e do “ocidente”, e nas suas relações recíprocas. O que seria verdadeiramente histórico.
Mário Pinto
Público, 25-09-06
