Thursday, October 19, 2006


Science&Vie dedica-se aos milagres

O numero 236 “hors série” da Science&Vie intitula-se “Les miracles. Concevoir l’inconcevable”. É excelente, como todos os especiais desta revista. O milagre apenas é abordado como “singularidade científica” ou “excepção médica”, nunca como mensagem de salvação, nunca na perspectiva bíblica (sinal extraordinário + mensagem). Não há teólogos. Só cientistas, epistemólogos e filósofos. Mas, mesmo assim, excelente como ponto de partida, mesmo quando já ninguém usa o milagre no esforço de justificar a credibilidade da fé cristã.

Wednesday, October 18, 2006

Deus, que Deus?

Diz Anselmo Borges na crónica do DN de 15 de Outubro: “Não há dúvida de que hoje, concretamente na Europa, há uma crise da religião, que é sobretudo uma crise de Deus. Basta perguntar, se modo simples: para quantos é que Deus ainda conta realmente nas suas decisões vitais, tanto no domínio pessoal como colectivo?”

A questão é pertinente e o padre filósofo preconiza uma “mística do quotidiano”. Mas teremos nós, sociedade europeia, saudades do tempo em que Deus contava nas decisões pessoais e colectivas? Esse tempo era melhor? E depois, a grande questão: de que Deus falamos quando falamos de Deus? Nunca daí conseguimos sair.

O que é Deus contar nas decisões pessoais e colectivas? Como é que isso se faz, sem falar de pecado (as decisões humanas contra Deus)? Como pode existir o pecado no meio do relativismo e do psicologismo (aquele que quer evitar os traumas de uma educação rígida e/ou religiosa, por exemplo).

Mais: Deus nas decisões colectivas e pessoais... não é isso que acontece nos fundamentalismos?
O apagamento de Deus na sociedade contemporânea e dos seus sucedâneos (o pecado, os sacramentos – sinais do sagrado, o céu e o inferno, o valor do sacrifício, a oração) não afectam apenas a sociedade. Afectam a Igreja. Numa recente reunião em que se debatia o laicismo, um alto responsável dizia: “Se fosse há 30 anos, estávamos aqui a discutir o céu e o inferno, agora estamos a falar de laicismo, laicidade e presença da Igreja na sociedade”. Dizia isso como sinal de atenção da Igreja aos problemas do mundo. Mas a minha leitura é outra: significa a perda de significado do que é intrinsecamente religioso (e que por isso ilumina ou obscurece toda a vida humana), e irrelevância da própria Igreja. É que nem esta fala de Deus, do céu e o inferno, do pecado e da graça. E se fala, fala com as categorias do passado, as quais, de tão conotadas com outras épocas, foram necessariamente abandonadas. A Igreja é mais reflexo da sociedade do que fermento.

O problema, ao contrário do que dizia Anselmo Borges, não é o apagamento de Deus da sociedade. É o apagamento de Deus da Igreja. Talvez apagamento seja demasiado forte. Digamos antes: o modo irrelevante de falar de Deus e de Jesus Cristo nas homilias, nos livros, nos jornais e revistas católicos. Mas, que quem falamos, quando falamos de Deus?

Saturday, October 14, 2006

Crédito sim, esmola não

Os pobres não precisam de esmola, precisam de crédito. Esta é a ideia-base, e muito antiga, do microcrédito de Muhammad Yunus, que ontem ganhou o Prémio Nobel da Paz, juntamente com o Grameen Bank. Jutificação do comité: “Todos os indivíduos têm o potencial e o direito de viver uma vida decente. Em muitas culturas e civilizações, Yunus e o Grameen Bank mostraram que até o mais pobre dos pobres pode trabalhar para alcançar o seu desenvolvimento”.

Este Nobel foi uma óptima notícia para os pobres que nunca tinham ouvido falar de microcrédito. Trouxe visibilidade. Uma ideia e uma pequena quantia podem fazer toda a diferença. Ninguém está destinado à miséria.

O “banqueiro dos pobres”, nunca deu uma esmola (faz questão que todos saibam disso), mas já ajudou 500 milhões de pessoas (ou, como alguns gostam de dizer: “Ajudou a que se ajudassem”). Fez imenso pelo desenvolvimento, “o novo nome da paz”, conforme disse o Papa Paulo VI nos anos 60. Em Portugal, segundo o jornal Público, houve até agora 615 empréstimos, que criaram 711 empregos.

Esta ideia do crédito em vez da esmola encaixa na doutrina moral social católica, que diz que o bem deve ser bem feito. Sem dúvida que há um tipo de caridade que é o bem mal feito (quando a curto, médio ou longo prazo prejudica). Não é caridade, sequer.

Thursday, October 12, 2006

Never ending story

Há dias, numa conversa à mesa, um bispo dizia que o cristianismo é uma conversa que nunca acaba e que isso é mais um motivo para ser cristão. Falava-se a propósito do discurso do Papa e das dificuldades que tem a hermenêutica muçulmana. O islamismo é uma conversa acabada. Está tudo escrito num só livro, está tudo explicado – dispensa-se a exegese e a hermenêutica. No cristianismo, há pluralidade desde o início (quatro evangelhos, não um), muita diferença, logo, motivos para muita conversa. A conversa inacabada, dizia o bispo, já fora notada por um dos discípulos de Cristo: “Só tu tens palavras de vida eterna”.
Lembrei-me desta conversa sobre a conversa ao ler George Steiner: “A pátria judaica é o texto, comprometido com a memória, examinado minuciosamente e objecto de intermináveis comentários (cf. a “análise interminável” de Freud) em qualquer parte do mundo. A mitologia judaica consiste, por excelência, na prolífica crónica das histórias dos Mestres e dos episódios explicativos que acompanham os seus ensinamentos” (“As Lições dos Mestres”, pág. 125).

Wednesday, October 11, 2006


O essencial do cristianismo

Mais um “20 clés pour comprendre”, de Le Monde des Religions, desta vez sobre o cristianismo. As vinte chaves para compreender o cristianismo, em 82 páginas, são:
1 – Jesus e o seu tempo. A Palestina em efervescência.
2 – Jesus visto pelos cristãos. A fé dos discípulos.
3 – Os textos fundadores. O Novo Testamento.
4 – A Igreja primitiva. As primeiras comunidades.
5 – Constantino, imperador cristão. A conversão de Roma.
6 – A Trindade. O fundamento da doutrina cristã.
7 – Os Padres da Igreja. Os primeiros pensadores cristãos.
8 – A vida monástica. Nascimento do monaquismo.
9 – As diferentes Igrejas. Uma grande família dividida.
10 – A questão da salvação. Como aceder à felicidade eterna.
11 – Heresias e inquisição. A Igreja contra a dissidência.
12 – O esoterismo cristão. À procura do sentido escondido.
13 – A mística. A experiência da fé.
14 – Maria e os santos. Nas fontes da piedade popular.
15 – As festas. Celebrar os mistérios.
16 – Os símbolos. Os sinais do divino.
17 – Os clérigos e os sacramentos. O acompanhamento dos fiéis.
18 – Missões, colonizações, cruzadas. Ambiguidades da tarefa missionária.
19 – O diálogo ecuménico. Uma reconciliação difícil.
20 – Os cristãos de hoje. Uma religião fragmentada.